A cartografia da laje: ressignificação e resistência
A cartografia da laje: ressignificação e resistência
A
utilização do conceito de “cartografia” neste texto possui íntima ligação com a
inquietude da natureza humana de conhecer, entender e criar um registro do seu
espaço. Cartografia deve ser entendida aqui em um sentido amplo, que vai além
da acepção de criação de mapas e cartas em sentido restrito; deve ser
compreendida como uma visão que se inclina mais para um uso metafórico dessa
linguagem própria dos estudos geográficos. Linguagem que pretende pensar o
gesto de desenhar mapas como forma de escritura crítica que investiga
determinado espaço com vistas à abertura de uma discussão acerca das suas
representações simbólicas. Mapas que serão desenhados a partir de uma
perspectiva coletiva de ressignificar suas representações preconcebidas e de
tornar determinado espaço um lugar mediado pela afetividade dos seus sujeitos
protagonistas.
O
lugar que analisaremos é o da laje. A laje nas favelas[1] do
Rio de Janeiro. Esse espaço tem se apresentado como um lugar de disputa entre
narrativas que remetem ao olhar de fora (colonizador) e a um olhar de dentro
(da comunidade que o habita) que dão ao lugar um caráter polissêmico em suas
diversas representações e que tentam reforçar ou ressignificar o imaginário
social acerca da favela.
O
interesse de estabelecer a laje como locus
de discussão surge a partir da produção artística do Slam Laje que utiliza o espaço para realização de seus eventos
artísticos. O grupo, idealizado pelos poetas Sabrina Martina, Marcelo Magano e
Al-Neg, reúne jovens de diversas favelas e periferias do Rio de Janeiro que se
encontram em suas edições para realizar as batalhas de poesias (e outros
concursos ligados à cultura periférica como as “batalhas do passinho”, por
exemplo) que ocorrem na laje da Casa Brota, localizada no Complexo do Alemão[2]
desde a primeira edição do evento em 2017.
Buscaremos
aqui pensar nos sujeitos que irão “redesenhar esses mapas” e em como suas ações
e intervenções artísticas buscam aprofundar a discussão e expor a complexidade dos
espaços marginalizados, negando uma narrativa unidimensional para suas
vivências. Nesse processo de produção de novos sentidos, coexistirão forças
opostas que representam a ação dos olhares citados anteriormente. Por um lado,
a força que se impõe a partir de um lugar privilegiado socialmente e que tenta
conferir sentidos quase sempre negativos ao espaço e aos habitantes dessas
margens. De outro lado, há esse movimento que aplica uma força oposta e que
busca, através do protagonismo e da multiplicidade das narrativas, reapresentar
a laje como lugar de afeto, arte e cultura na cidade. Espaço de disponibilidade
e possibilidades que se contrapõe aos sentidos violentos que a narrativa de
fora impõe.
Iremos
articular alguns conceitos da geografia humanística, objetivando pensar o
espaço da laje como lugar de afetividade e de resistência, além de refletir
sobre a renovação do conceito de marginalidade reivindicada por esses poetas.
Sobre ser poeta (e) marginal na cidade
O conceito de “literatura marginal” possui
um marco importante no histórico de suas discussões com a publicação, em 1975, da
antologia 26 poetas hoje, organizada
por Heloísa Buarque de Hollanda. Na sua introdução, já é possível inferir o que
a pesquisadora concebe como “marginal” naquele período ao referir-se à produção
poética representada na antologia. Assim afirma: “Frente ao bloqueio
sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição
independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde
com o antigo leitor de poesia” (HOLLANDA, 2007, p. 9).
Nesse sentido, “marginalidade” relaciona-se,
nesta primeira acepção, à posição de independência em relação à lógica de
publicação e produção do mercado editorial. A esse sentido do termo “marginal”,
a autora acrescenta características que aludem aos elementos intrínsecos e
extrínsecos do texto literário: participação do autor nas etapas do processo de
confecção e venda do livro; linguagem informal (“fácil e engraçada e que fala
da experiência vivida”); desierarquização do espaço nobre da poesia; recusa da
literatura classicizante e das vanguardas experimentais (HOLLANDA, 2007).
É
sintomático que nessa amostragem de poetas representantes de uma marginalidade não haja poetas periféricos
negros dessa mesma cidade. Falando de poesia, também estamos falando de territórios
e suas fronteiras sociais; de circulação de corpos. A poesia representada na
antologia é um recorte de uma produção guiada pela espacialidade, e Heloísa
Buarque de Hollanda já se posiciona criticamente na introdução da obra sobre a
questão ao afirmar que:
Esta mostra de poemas não foi feita
sem arbitrariedade. Como a circulação da maior parte das edições é
geograficamente limitada e se confina às suas áreas de produção, não escolhi
senão entre os trabalhos que estavam ao alcance de meu conhecimento. Assim, a
grande maioria dos poetas apresentados são residentes ou publicados no Rio de
Janeiro. Além dos limites naturais e geográficos, outras restrições foram
feitas. Como princípio, não quis que esta antologia fosse o panorama da
produção poética atual, mas a reunião de alguns dos resultados reais
significativos de uma poesia que se anuncia já com grande força e que, assim
registrada, melhor se oferece a uma reflexão crítica. (HOLLANDA, 2007, p. 13)
Mesmo “à margem”, esses poetas
representam um espaço não-periférico e de privilégio quando pensamos na
dimensão da cidade e sua organização social: são em sua maioria[3] homens
(os poetas se dividem em 21 homens e 5 mulheres), brancos e de classe média que
se reuniam e circulavam na Zona Sul do Rio de Janeiro. Naquele momento, o
“alcance do conhecimento” dessa poesia produzida à margem do mercado editorial
era medida pela oportunidade baseada na detenção de um direito de circulação nos
espaços de elite. Pela amostragem da antologia, se deduz certa predominância de
um perfil hegemônico (no que se refere à condição socioeconômica) do “poeta
marginal” dentro de suas diferenças, mesmo considerando que este retrato de um momento
“pode ser desigual, transitório e arriscado” (COELHO, 2018, p. 3).
Desse grupo, alguns assumiram intensamente (pensando
em sua produção futura ou no espaço que ocupariam na historiografia literária)
essa identificação com o que ficou conhecido como “poesia marginal” ou “geração
mimeógrafo”. A partir do exposto, percebe-se que o conceito de marginalidade
assume, neste cenário, uma aura, além da perspectiva de independência na sua produção,
como já citado, de certa performance juvenil para alguns poetas desse grupo, como
afirma o poeta Chacal:
Têm várias
leituras desse marginal. Em todas elas a gente se encaixa. Desde a poesia
"oficial", estilisticamente, tematicamente, até a marginalidade em
relação à produção e à distribuição dos livros, que a gente produzia por meio
de mimeógrafos e distribuíamos de mão em mão, nas praças e recitais, até a postura da gente na vida era marginal, não era
nunca de um ser equilibrado, do sistema. Nós éramos boêmios, alucinados.
(CHACAL, s.d.)[4]
Pode-se
pensar também em uma “performance da marginalidade” em que o termo assume para
si uma identidade de valoração dentro de um microespaço em que o novo está em
oposição ao velho, representado, nesse caso, pela “caretice” social. “Boêmios e
alucinados”, mas ainda pertencentes a certo espaço privilegiado da cidade,
legitimados pela posição social e, em sua maioria, pela noção de branquidade[5]. Perto de completar 50 anos do lançamento da
antologia 26 poetas hoje cabe trazer
a discussão de algumas dessas contradições sociais e de circulação no
território urbano para esta segunda década do século XXI em que assistimos o
fortalecimento de uma nova geração de poetas que também se autointitulam
marginais.
Embora
a pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda (s.d.) proponha novas terminologias
para falar desse outro tipo de literatura que surge das vozes das margens
sociais, “literatura de compromisso”, a produção poética do slam está conectada à sua vivência marginal
cotidiana no espaço urbano. Carol Dall Farras (poeta que também se apresenta no
slam laje) intercala, durante
entrevista ao canal “Mulheres de luta”[6], à
expressão “poeta marginal” a alcunha “poeta marginalizado” (2017). É
interessante observarmos as provocações e os sentidos que se agregam ao uso de
uma expressão ou outra. O poeta marginal é o que se autointitula e ressignifica
positivamente sua condição às margens, enquanto que o marginalizado reflete
aquele que está na condição de. São sentidos de violência e passividade. Nessa
perspectiva, seria interessante pensarmos que, na produção do slam, o poeta marginalizado está contido
no poeta marginal. Ambos articulam essas duas faces da produção que parte de um
lugar não privilegiado, mas que confere força de representatividade para esta
voz dentro de uma coletividade invisibilizada.
A
questão racial será muito importante para uma (re)leitura dos sentidos que a
expressão poesia marginal abriga. A questão não deve ser esquecida ou deixada
de lado em um debate que fala da produção poética em uma cidade repleta de territórios
marginalizados, de fronteiras sociais e construída sobre uma herança racial
incômoda do período escravocrata. O catalisador para essa reflexão será
justamente esse uso, em momentos distintos (os anos 70 e a segunda década do
século XXI) e de forma variada, do conceito de marginal na poesia. Dessa forma,
pretende-se pensar a noção de marginalidade pelo próprio trânsito ou percepção
da cidade pelo poeta e também pelo recorte racial.
Marginais e periféricos
Quem
são os autointitulados marginais de agora? Heloísa Buarque de Holanda, em seu
artigo “A questão agora é outra”, já antecipa uma resposta:
Literatura marginal, periférica,
divergente e alguns outros termos pelos quais é conhecida é uma nomenclatura
adequada na medida em que sem sombra de dúvida essa literatura representa uma
parte da cidade até hoje praticamente desconhecida pelo que até hoje chamamos
de centro, um conceito que começa a ser desestabilizado precisamente pela
visibilidade e força simbólica que estão surgindo com intensidade vinda das
periferias. Mas acho marginal ainda pouco porque não fala dos compromissos que
esta literatura assume enquanto agente de transformação social. É uma
literatura que vai bem além das funções sociais atribuídas à literatura
canônica ou mesmo de entretenimento. É uma literatura de compromisso.
(HOLLANDA, 2018)
Ainda falando sobre a literatura que ganha força nos
anos 2000, com a publicação de Capão
Pecado pelo escritor Ferrez, Hollanda (2018) já antecipa algumas
características que serão importantes para pensar a marginalidade na segunda
década do século XXI na produção poética do Slam
Laje[7]. A
acepção de uma “literatura de compromisso” utilizada pela pesquisadora vai de
encontro a certas críticas que esses jovens poetas recebem de produzir uma
“literatura panfletária”. Esse embate surge ainda na matriz de uma discussão vista
nos anos 20 do século passado no surgimento do Modernismo de uma “pureza da
arte” em que se cria arbitrariamente um código de conduta para o poeta e para a
poesia.
Como
todo movimento que busca questionar certo status
quo, a poesia que surge da laje, dos corpos marcados pela exclusão social,
causa incômodo em quem se nega à discussão de que a poesia, mesmo quando se
propõe transgressora, possui ainda um lugar privilegiado geograficamente dentro
dessa cidade dividida e segregadora. Apesar de algumas semelhanças que podemos
estabelecer entre o movimento marginal dos anos 70 e os poetas marginais do slam, não é possível, contudo, dizer que
estão conectados ou que o segundo surge da influência do primeiro.
O
termo “marginal” acabou por trazer a questão do ponto de vista da
historiografia literária, mas é preciso ver que essa própria historiografia
silenciou e silencia vozes de poetas negros ao longo da construção do seu
cânone e que precisam ainda hoje ser “resgatados” e causar incômodo na plateia que acusa de que tal obra
não é boa suficiente para estar no panteão da literatura e que sua relevância
reivindicada por pesquisadores é apenas resultado das cobranças dos movimentos
identitários.
Nesta
mesma abordagem crítica, a linguagem coloquial, vista como libertação da
linguagem poética para determinado grupo, para outro, é vista como
desqualificante. Hollanda já apontava essa questão quando tratava das críticas
à obra de Ferrez:
Esses escritores escrevem errado,
não apresentam um trabalho pertinente com a linguagem por falta de domínio da
língua, portanto não fazem literatura. Esses escritores não têm formação
literária. Ou seja, não conhecendo os grandes autores, esses escritores não
apresentam nenhuma filiação na série literária, o que os elimina a uma possível
candidatura à sua inserção a médio prazo no cânone literário. Resumindo: para
grande parte da academia e mesmo da crítica, a literatura marginal não pode
criar no trabalho com a linguagem aquilo que é conhecido como o específico
literário. (HOLLANDA, s.d.)
A
discussão lembra uma frase marcante que aparece no filme “Estrelas
além do tempo” (2016) baseado no livro Hidden
Figures que conta a segregação racial sofrida por engenheiras negras na
NASA durante a Guerra Fria. Em determinado momento, a personagem Mary Jackson
diz, ao ter sua candidatura negada para um programa de treinamento por uma
titulação que só existia em universidades para brancos: “Toda vez que temos a
chance de avançar, eles mudam a chegada”. Mudar a chegada é sempre uma maneira
de tutelar essa poesia, abrindo espaços em que o outro protagoniza e medeia seu
discurso ou impedindo o acesso a certos lugares de privilégio dentro das
discussões da academia.
A
oralidade dessas poesias performadas no Slam
Laje também traz à tona a própria hierarquização dos saberes, como expõe a
filósofa Djamila Ribeiro ao abordar a contribuição da feminista negra Lélia
Gonzalez à questão:
[...] quem possui o privilégio
social, possui o privilégio epistêmico, uma vez que o modelo valorizado e
universal de ciência é branco. A consequência dessa hierarquização legitimou
como superior a explicação epistemológica eurocêntrica conferindo ao pensamento
moderno ocidental a exclusividade do que seria conhecimento válido,
estruturando-o como dominante e assim inviabilizando outras experiências do
conhecimento. Segundo a autora [Lélia Gonzalez], o racismo se constitui “‘como
a ‘ciência’ da superioridade eurocristã (branca e patriarcal)”. Essa reflexão
de Lélia Gonzalez nos dá uma pista sobre quem pode falar ou não, quais vozes
são legitimadas e quais não são. (RIBEIRO, 2017, p. 24-25)
Para
além das discussões sobre preconceito linguístico, estamos também falando do
contexto dos poetas do slam sobre um
conveniente esquecimento da importância da oralidade na construção cultural da
sociedade. Deslegitimar a produção de conhecimento de uma intelectualidade
periférica que surge de experiências de conhecimento que nascem de realidades
distintas das experimentadas pelo saber acadêmico e/ou da branquidade é uma das
facetas do racismo nessas relações.
Os seguranças da loja seguem o flaneur
Pensando
em sua descendência artística, sua linhagem poética, a literatura do slam possui relação direta com os movimentos
musicais periféricos como o rap, o hip hop e o funk. Isso pode ser
confirmado no título de Mc’s que os poetas ostentam em trabalhos paralelos em
que são cantores e compositores [8] ou
mesmo na presença nas edições do Slam laje
das famosas batalhas do passinho, expressão cultural muito forte nos bailes
funks realizados nas favelas.[9]
Quando
tratamos do trânsito em certa área da cidade dos poetas da geração mimeógrafo,
observamos que não haveria questionamento sobre a legitimidade desses corpos de
ocuparem esse espaço privilegiado do Rio de Janeiro: a Zona Sul. Se pensarmos
no sistema que o poeta diz se recusar a integrar (“[...] até a postura da gente
na vida era marginal, não era nunca de um ser equilibrado, do sistema”. CHACAL, s.d.), ele, na verdade, é a ponta de uma
rebeldia de certa forma aceita e legítima da estrutura social.
Aceita-se
no sistema a postura estável e a instável dos corpos aos quais são conferidos o
direito de circular por essa região da cidade, longe da periferia e de uma
outra noção de marginalidade, mais violenta e segregacionista. Aceita-se o
instável, desde que esta instabilidade não abale as estruturas de opressão nas
quais descansa esta balança de contradições sociais. Essas contradições
atravessam a linguagem[10] e
a circulação dos corpos que não pertencem a esses lugares.
Por
isso, foi dito anteriormente que o perfil dos poetas apresentados na antologia 26 poetas hoje é sintomático, eles
marcam uma ausência, já apontada pela pesquisadora em seu texto de abertura. Quando
pensamos no corpo na cidade, precisamos falar sobre a que corpo estamos nos
referindo, visto que não há nesta relação entre corpos e cidade uma suposta
neutralidade ou universalidade sobre o sujeito desse corpo: não há sequer as
mesmas possibilidades de trânsito.
É fácil visualizar essa questão nas
reportagens a partir de 2015, no município do Rio de Janeiro, envolvendo o
ônibus da linha 474 que liga o bairro
periférico do Jacaré (e as regiões próximas como a favela do Jacarezinho,
Manguinhos e Benfica) às praias da Zona Sul. Durante o verão, são infelizmente
corriqueiros episódios que vão desde a depredação à invasão sem pagamento, da
interrupção arbitrária da viagem pela força policial até a hostilidade
protagonizada por moradores da Zona Sul que assumem para si o poder de polícia[11],
prendendo e agredindo quem eles consideram suspeitos em um cenário caótico de
desordem urbana e racismo naturalizado. A professora Miriam Krenzinger (2017) reproduziu em coluna do site
“Justificando” um discurso feito por morador da Zona Sul que gravava uma das
inúmeras confusões envolvendo o ônibus no verão de 2017:
“Estão saindo do ônibus que nem
um formigueiro.
Estamos sem autoridade, sem lei sem
nada.
Essa gente tem que morrer.
Essa gente não vale nada, olha
isso…
É mulher, é criança, é tudo…um
bando de safado.
Essa porra não tem que vir pra cá
não.
Tem que deixar eles lá no subúrbio.
Não merecem nem vir à praia.
Filhas da puta, vêm pra cá estragar
nosso bairro”.[12]
Nesse
cenário, para o problema que é urbanístico e também social, criam-se “soluções”
baseadas em medidas separatistas que tentam impedir que esses corpos, que são
concebidos ao olhar do outro como “potencialmente perigosos”, cheguem a esses
lugares privilegiados[13]. “Soluções”
dessa natureza são muito bem-aceitas pela parcela da sociedade que acredita que
pertence genuinamente a esses espaços. O poder controlador do Estado irá também
trabalhar em prol da coerção e disciplina desses corpos e mesmo de sua
definitiva eliminação. [14]
E
esses corpos jovens, negros em sua maioria, quando ocupam esses espaços negados,
transitam sob o olhar atento das câmeras, dos seguranças, dos moradores alertas
e assustados. É uma perversão do flanêur apresentado
pelo poeta francês Charles Baudelaire. Ao prazer voyeurístico, sobrepõe-se o
poder controlador do olhar pan-óptico foucaultiano que direciona sua câmera
vigilante nos corpos negros e periféricos nesses espaços. O trânsito desses
corpos torna essa realidade social, que é invisível nessa parte da cidade, extremamente visível e vigiada.
O processo de construção espacial
da cidade, em geral, não vem, ao longo da história, contemplando os grupos
denominados “minorias”. O fazer a cidade pertence aos grupos socialmente mais
representativos, que participam do processo como sujeitos históricos, enquanto
aos demais resta acompanhá-los como massa, sem nenhuma determinação, seja qual
for a instância analisada: política, econômica ou social (CAMPOS, 2005, p. 19)
A
construção da sociedade como espaço urbanístico reflete sua estrutura de
contradições sociais e históricas, criando fronteiras visíveis e invisíveis,
limites para os sujeitos. O “corpo perigoso” assume o rosto dos marginalizados:
é o corpo negro e periférico. Como forma de ressignificar seus corpos e sua
história, esses sujeitos organizam estratégias de sobrevivência e convivência a
partir da transformação de seus espaços em lugares mediados pela afetividade. É
fundamental transcender os aspectos meramente físicos-espaciais e repensar os
lugares periféricos como protagonistas na produção cultural e poética da cidade.
A laje e suas representações
O
geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan (2013) diz que um lugar é um conceito que
nasce na vivência do espaço, e esses espaços tornam-se “lugares” quando há uma
relação de afetividade pelo elo entre as pessoas. Contudo, como é possível criar
relações afetivas e efetivas em espaços hostilizados, com corpos hostilizados? Michel Foucault nos diz que “[...] as
relações de poder suscitam necessariamente, apelam a cada instante, abrem a
possibilidade a uma resistência” (2006,
p. 232). Diante do recrudescimento das relações com o outro, que usa a
brutalidade e a própria paisagem urbana para dividir a cidade (o túnel, o muro,
o asfalto), a arte do slam surge como
forma de resistência e ressignificação dos espaços periféricos.
Ataques
poéticos em transporte público, batalhas de poesia em praças públicas, eventos
culturais são alguns dos exemplos, mas o que se destaca dentro da perspectiva
de uma ressignificação é o já citado grupo Slam
laje que realiza suas batalhas de poesia no Complexo do Alemão, na laje da
Casa Brota. A Casa Brota é o primeiro espaço de coworking no Complexo do Alemão, seu objetivo é o fortalecimento
das redes locais de microempreendedores e, desde 2017, é palco das edições do Slam Laje. O espaço representa a
valoração dos saberes daquela comunidade que são negligenciados ou
invisibilizados por uma epistemologia dominante.
Na
história da cartografia mundial, observa-se que os mapas, antes da visão
global, eram desenhados a partir do ponto de vista da sociedade que o criava e
que se colocava no centro geográfico do mundo. O mapa da cidade parece ainda
repetir esse senso etnocêntrico, colocando no centro da vida urbana certos
espaços e marginalizando outros. A resistência a esse etnocentrismo é tentar criar
uma cartografia que altere essa perspectiva de poder e transforme o espaço em
lugar na concepção de Yi-Fu Tuan (2003).
A
laje possui muitos significados para a sociedade e para sua comunidade. Pode
ser um ponto estratégico de observação e controle do tráfico de drogas,
assumindo um papel na guerra urbana que existe há tempos na cidade do Rio de
Janeiro. Nessa representação, ela destaca-se pela possibilidade de uma visão
ampla e privilegiada da favela, permitindo o controle de acessos e movimentos suspeitos.
A
laje também é lugar de entretenimento para moradores, um quintal construído nas
alturas pela falta de espaço nessas moradias que se constroem verticalmente, separadas
por ruas e becos estreitos. Enquanto lugar de lazer, tem ido representada em
produtos como videoclipes e novelas como espaço de visibilidade dos corpo de
seus moradores e de suas sexualidades por uma prática que nasce da própria
dificuldade de trânsito da cidade: o bronzeamento na laje.
Recentemente
a cantora Anitta utilizou o espaço como locação de seu clipe Vai malandra (2017),
reproduzindo a cena das mulheres se bronzeando na laje da favela fazendo uso de
fita adesiva. O clipe foi discutido exaustivamente nas redes sociais e em outros
espaços da mídia, atravessando questões feministas, de nacionalidade, empoderamento
e reforço de hiperssexualização das mulheres brasileiras para ao mercado
exterior. A laje, neste trabalho musical, reproduziu sentidos ligados ao senso
comum que a sociedade tem do espaço. Ainda no campo musical, a laje da favela
Santa Marta foi também palco de algumas cenas do clipe da canção They Don’t
Care About Us do cantor norte-americano Michael Jackson, lançado em 1987. No
local, há atualmente uma estátua do cantor que virou atração turística e é
conhecida como “laje do Michael do Jackson”.
Karol
Conka, em clipe para a música Cabeça de Nego, filmado na favela do
Bokerão, em São Paulo, traz outro olhar sobre a favela. Algumas cenas da laje
fogem da relação fácil de corpos hiperssexualizados e de uma estetização do
espaço, abrindo para a construção de uma memória afetiva ligada ao falecido
cantor Sabotage[15] e uma integração com a
comunidade, diferentemente dos outros clipes citados em que há uma visível
separação entre os artistas da produção e os moradores da favela.
Esses
três exemplos denotam o caráter polissêmico do signo da laje nas representações
culturais. A partir deles, podemos
questionar: como a laje pode surgir como espaço de resistência desses corpos potencialmente
perigosos? Assumir que a laje é o local do jovem periférico é um gesto de
resistência? Na contramão do movimento
dos “ataques poéticos” que invadem o espaço hostil a esses corpos e oferecem
arte, permanecer na laje é resistir à
cultura separatista dessa nossa cidade dividida?
A
resposta está em ressignificar, em subverter a cartografia etnocêntrica dos
espaços. O Slam laje é um convite e
uma reivindicação para que o asfalto não só suba à laje, mas se integre a esse
espaço marginalizado. A visibilidade das redes sociais na internet − que são
sua grande fonte de divulgação − consegue a cada edição que grupos de
diferentes origens faça com que esse “espaço” se torne “lugar” (na concepção de
Yi-Fu Tuan) pela criação desse sentido de afetividade e elo entre as pessoas.
Na edição de março de 2018, o evento realizado na Casa Brota encerrou uma das
manifestações contra o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Oriunda
da favela da Maré no Rio de Janeiro, a vereadora possuía uma forte ligação de
representatividade com esses jovens e essa edição (que também foi em homenagem
à sua memória) trouxe mais uma vez um público de outro espaços sociais para que
exercitasse a escuta desses jovens e suas poesias. Mas um dos objetivos
defendidos por Sabrina Martina é que o slam conquiste o moradora da
favela, que incentive o contato dos jovens com a poesia marginal e que dessa
interação nasçam novos poetas e interlocutores dos temas que tratam dessa
realidade compartilhada.
Tuan
diz que “os acontecimentos simples podem com o tempo, se transformar em um
sentimento profundo pelo lugar” (2013, p. 183). E isso é visível na integração
que as batalhas de poesias promovidas pelo grupo trazem aos moradores da
favela. O registro fotográfico dos evento capta um cenário de afetividade com a
presença de crianças e famílias que oferecem ao olhar do outro ( o que está de
fora) outras representações para o espaço da laje não só como lugar de entretenimento do morador, mas como lugar de uma produção
artística crítica, que é capaz de integrar a comunidade pelo afeto e um
espírito de coletividade. Esses sentidos remetem ao conceito de topofilia proposto por Tuan:
A topofilia é um neologismo, útil
quando pode ser definida em um sentido mais amplo, incluindo todos os laços
afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material. A resposta ao meio
ambiente pode ser basicamente estética: em seguida, pode variar do efêmero prazer
que se tem de uma vista, até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito
mais intensa, que é subitamente revelada. A resposta pode ser tátil: o deleite
ao sentir o ar, água, terra. Mais permanentes e mais difíceis de expressar, são
os sentimentos que temos para com um lugar, por ser o lar, o locus de
reminiscências e o meio de se ganhar a vida. (TUAN, 1980, p.107)
Se por um lado a
proximidade e a rotina de viver em um lugar concebido histórica e socialmente
como marginalizado e desqualificado dentro da organização social geram desprezo,
por outro, a sua ressignificação (que Tuan chama de topo-reabilitação, ou seja, de recriar a relação com o lugar
dotando seus habitantes de um sentimento de pertencimento) permite criar novos
sentidos para o espaço-laje.
Considerações finais
Se a laje na guerrilha
urbana é local de maior visibilidade para controlar os passos dos que pretendem
invadir este território, a laje (na perspectiva da produção poética marginal
desses jovens poetas) é também espaço de visibilidade para os corpos marginalizados
socialmente e sua poesia. As
ferramentas proporcionadas pela internet permitem que os eventos do grupo sejam
transmitidos ao vivo pelo Facebook,
alcançando um público que está além desses espaços.
Os
inúmeros vídeos das batalhas poéticas, além do registro fotográfico dos eventos,
traduzem uma poesia (aqui usada num sentido comum da palavra) que reverbera na
geografia e que retorna para esse espectador distante (que assiste pela
transmissão ao vivo ou pelo registro dos vídeos no canal do Youtube) uma
ressignificação de um espaço marcado social e urbanamente como um dos mais
violentos do Rio de Janeiro: o Complexo do Alemão.
O
desenho de um novo mapa guiado pelo afeto e pela produção artística parte do
direito que os jovens poetas reivindicam de ressignificar o lugar da laje, tornando-o
lugar de resistência. Descolonizando seus sentidos e representações. Fundando
um lugar de luta e afetividade.
Levando-se
em conta os desdobramentos do conceito de marginalidade desde os anos 1970 até
a segunda década do século XXI, é importante priorizar um olhar crítico para a
produção do Slam Laje e sua recepção.
É preciso uma postura crítica e de enfrentamento ao olhar colonizador que
tutela esa produção ou que a desqualifica com base em parâmetro não tão rígidos
quando falamos de poetas de espaços privilegiados socialmente.
Referências:
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<https://www.vix.com/pt/bdm/estilo/chacal-o-guerrilheiro-cultural-2>.
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KRENZINGER, Miriam. “474: Linha tênue”. Disponível em
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______. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio
ambiente. São Paulo: DIFEL, 1980.
[1] Utilizaremos aqui o termo “favela”
no lugar de “comunidade” em consonância com o próprio discurso e reflexão dos
poetas de apropriação e ressignificação dessa palavra com o objetivo de
empoderamento.
[2] O Complexo do Alemão é um bairro
localizado na Zona Norte do município do Rio de Janeiro que abriga um número de
favelas, Também é conhecido como Morro do Alemão.
[3] Relativizo com “maioria”, visto
que há na antologia nomes como José Carlos Capinan, que possui outro trânsito
no seu trabalho como poeta e compositor, além de uma trajetória de luta pelo
direito à memória da cultura afro-brasileira.
[4] Entrevista concedida ao site
“Bolsa de Mulher”. Disponível em https://www.vix.com/pt/bdm/estilo/chacal-o-guerrilheiro-cultural-2.
Acesso em 20 jun. 2018.
[5] Segundo Camila Moreira de Jesus
(2012), a “branquitude passa a ser discutida como um estágio de conscientização
e negação do privilégio vívido pelo indivíduo branco que reconhece a
inexistência de direito a vantagem estrutural em relação aos negros. Já a
nomenclatura branquidade, toma o lugar que até então dizia respeito a branquitude,
para definir as práticas daqueles indivíduos brancos que assumem e reafirmam a condição
ideal e única de ser humano, portanto, o direito pela manutenção do privilégio
perpetuado
socialmente.” (JESUS, 2012, p. 2).
[7] Estamos tratando aqui não só do
conjunto de apresentações realizadas nas batalhas de poesias nas edições do Slam Laje, mas também da ideia de
coletivo cultural que o grupo representa.
[8] Recomenda-se o trabalho como Mc da
poeta Carol Dall Farra e sua mais recente parceria com o canal “Peixe
Barrigudo” na canção “Rua de Barro” que pode ser encontrado em sua página no
facebook: https://www.facebook.com/mcdallfarra.
[9] O “Passinho” está também ligado às
novas ressignificações da diáspora africana e seus diálogos culturais com as
danças de países do continente africano como o ritmo kuduro de Angola. Para saber mais sobre o assunto, recomenda-se
a leitura de “No território do passinho: transculturalidade e ressignificação
dos corpos que dançam nos espaços periféricos”. Dissertação de mestrado de Luna
Maria Pacheco do Nascimento (2017).
[10] Podemos ver um exemplo dessas
contradições na linguagem na manchete em que trata do crime de um jovem de classe
média: “Jovens que amarraram infrator em poste são detidos por tráfico”. Fonte:
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/10/jovens-de-classe-media-sao-presos-durante-acao-contra-o-trafico-no-rio.html
[11] “Justiceiros de Copacabana: grupo
decide atacar suspeitos de assaltos”. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/09/1684693-justiceiros-de-copacabana-grupo-decide-atacar-suspeitos-de-assaltos.shtml Acesso em 15 jun. 2018.
[12] Disponível
em http://justificando.cartacapital.com.br/2017/01/16/474-linha-tenue/.
Acesso em 15 jun. 2018.
[13] No final de 2016, o prefeito
eleito do município do Rio de Janeiro declarou que a cidade deveria ser cercada
por muros como Jerusalém. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1835227-crivella-disse-que-rio-deveria-ser-murado-como-jerusalem.shtml (Acesso em 28 jun. 2018)
[14] Para aprofundar a questão,
recomenda-se o artigo “Violência: guerra aos jovens, negros e pobres das
periferias”. Disponível em: https://www.geledes.org.br/violencia-guerra-aos-jovens-negros-e-pobres-das-periferias/
[15]
Sabotage foi um rapper e ator de São Paulo, assassinado em 2003. Considerado
por muitos artistas como uma inspiração, ele lançou um único álbum solo em 200:
“Rap é Compromisso”.




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