A voz, a palavra e a resistência: relações poéticas entre Stela do Patrocínio e Carol Dall Farra

by - julho 02, 2019




Este texto foi publicado como um dos capítulos do livro Bioescritas/Biopoéticas: pensamento em trânsito. Volume 2. São Paulo: Pontocom, 2018. 176p. ISBN 978-85-66048-98-8. E apresentado como comunicação no VIII Seminário Internacional dos Grupos de Pesquisa Bioescritas e Biopoéticas, na Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO, Duque de Caxias-RJ), em 31 de outubro de 2017. A partir de fevereiro de 2018, passou a ser desenvolvida como pesquisa em nível de pós-doutorado na UNIGRANRIO de Duque de Caxias. 




A voz, a palavra e a resistência: relações poéticas entre Stela do Patrocínio e Carol Dall Farra[1]


Fabiana Bazilio Farias


A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.
Conceição Evaristo


Maria Antonieta Antonacci, em seu Memórias ancoradas em corpos negros (2014), traz algumas reflexões importantes para entender a relação entre a oralidade e o escrito. Sua leitura dialoga com as contribuições de Walter Benjamin para falar das experiências “dos que só tem corpo em suas formas de comunicação, heranças de seus antepassados e marcas de sua história” (BENJAMIN, 1994, p. 17). A questão da oralidade e do corpo são pontos centrais no seu estudo e tentam desconstruir a visão de que oralidade não é apenas a palavra, mas é também o gesto e a performance corporal. O atravessamento da oralidade e da transmissão de saberes passa pelo corpo e pela noção de comunidade na projeção de uma memória. Além do fato de ser o corpo que fala e emite sons, ele “se constitui em texto, por onde transitam experiências e narrativas encarnadas” (Idem, p. 62).
Dessa forma, a transmissão de saberes de uma deter- minada cultura, povo ou grupo social pode ser realizada pela oralidade aliando a potência da palavra à força do corpo. Essa transmissão agrega perspectivas variadas quando abordamos questões referentes à representatividade e à situação periférica desses grupos. O corpo é o instrumento da voz, do gesto e do espaço de memória coletiva marcado por significados sociais. Quando tratamos de corpos negros, nesse sentido, a ideia de coletividade e memória ganha mais espaço nas discussões, principalmente quando consideramos a dimensão histórica do povo africano, que traz no corpo a memória de performances ritualísticas, de gestos, de danças e de uma tradição em que o feminino é visto como guardião da memória, como assinala Débora Ferreira (2004):



Vimos essa tradição de mulher como “guardiã e veículo de identidade africana” no intuito de manter seu status e sua sobrevivência dentro de uma sociedade patriarcal, e diante de suas “obrigações” como mãe e mulher. Ser mulher em África era se posicionar diante das condições limitadas e castradas, e mesmo que de forma mais silenciosa.

A oralidade presente na transmissão da tradição já traz o signo da resistência na perspectiva da sobrevivência social da mulher. O corpo negro feminino, dessa maneira, carrega uma herança irrecusável que está em consonância com as tradições ressignificadas pela diáspora africana (ou diáspora negra). Esta abarca todo o processo de captura e migração forçada de homens e mulheres do continente africano e a transformação de suas identidades por meio do processo de inserção violenta em um novo contexto social. No Brasil, o resultado é uma grande e complexa herança social de exclusão, violência, hiperssexualização e invisibilidade do negro ao longo dos séculos. A voz que se levanta desses corpos precisa enfrentar o embate pela legitimação e pela disputa de espaços ocupados pelo “outro” que ainda persiste numa lógica silenciadora.

“Pode o subalterno falar?”, questiona Gayatri C. Spivak em seu livro homônimo que discute como o sujeito no Terceiro Mundo é representado pela ótica ocidental. A autora reflete sobre o contexto cultural e histórico das mulheres indianas, em especial o ato de imolação das viúvas, para abordar o conceito de sujeitos subalternos, que são descritos como “[...] as camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 14). Sendo o subalterno este sujeito destituído de voz, Spivak argumenta que a situação de marginalidade do subalterno é imposta de forma mais brutal à mulher, que esta, em seu papel de subalternidade, “não pode falar e quando tenta fazê-lo não encontra os meios para se fazer ouvir” (Idem, p. 15).
Partindo dessas questões acerca dos signos da voz, da exclusão e da resistência é possível iniciar uma discussão sobre a perspectiva poética da voz e da performance do corpo negro feminino. Para Paul Zumthor, em Performance, recepção e crítica (2007), a performance é a única forma eficaz de comunicação poética:


Quanto à presença, não somente a voz, mas o corpo inteiro está lá, na performance. O corpo, por sua própria materialidade, socializa a performance, de forma fundamental. Aliás, a voz exerce no grupo uma função; e esta não é estritamente interpessoal, como pode ser na conversação. O desejo profundo da voz viva, que está na origem da poesia, se direciona para a coletividade dos que preenchem o espaço onde ressoa a voz [...]. A performance é uma realização poética plena: as palavras nela são tomadas num único conjunto gestual, sonoro, circunstancial tão coerente (em princípio) que, mesmo se distinguem mal palavras e frases, esse conjunto como tal sentido. (ZUMTHOR, 2005, p. 84-86)


Para distinguir a diferença entre a leitura individual e a performance, Zumthor traz como exemplo uma experiência de sua infância, quando assistiu com os amigos alguns cantores de rua em Paris. Ao tentar recuperar a emoção daquele momento, anos depois, na leitura de uma daquelas canções da infância, percebe a impossibilidade de revivê-lo. Dessa forma, o autor demonstra que o texto não é apenas a vocalização, mas inúmeros fatores exteriores que compõem o momento da performance. Logo, a presença do corpo em sua intensidade é o fator diferencial da leitura individual.
A partir desta perspectiva, podemos observar a produção poética da artista Stela do Patrocínio e as relações entre oralidade, performance vocal e as questões envolvendo o caminho da escrita na sua obra. Stela nasceu em 1941 e morreu em 1992. Desses 51 anos de vida, 30 anos foram de internação na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, situada em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Stela falava. Uma fala poética, fragmentada (em termos de eixo de sentidos) e contínua (no que se refere ao fluxo da fala) que impressionou a artista plástica Nelly Gutmacher quando esta montou, na década de 80, um ateliê na colônia Juliano Moreira. Stela do Patrocínio denominou essas falas de “falatório”, que foram gravadas em fitas cassetes e transcritas pelas estagiárias deste ateliê. Viviane Mosé, posteriormente, realizou a organização desse material e transformou em escrita o falatório de Stela, resultando no livro O reino dos bichos e dos animais é o meu nome, publicado pela editora Azougue em 2001. Em alguns textos sobre a poeta, é recorrente a expressão, com algumas variações, “Stela se destacava dos outros pacientes”. O destaque surge de uma previsibilidade de apagamento que instituições psiquiátricas fazem com as identidades que ali entram. Tornam-se números, doenças, tratamentos e abandonos. Stela foi completamente abandonada pela família e morreu de uma infecção generalizada na colônia psiquiátrica. Não viu seu falatório em livro.
Stela vocaliza sua resistência à uniformidade imposta pelo sistema psiquiátrico: no princípio a voz, antes da palavra em livro. Stela não parte da escrita, mas é guiada pela palavra e cria uma obra vocalizada. Em busca rápida pela internet, podemos localizar alguns vídeos com seus áudios. Ouve-se e experiencia-se o “falatório” que se presentifica pela sua voz. Citamos Stela do Patrocínio:


Eu sou seguida acompanhada imitada assemelhada
Tomada conta fiscalizada examinada revistada
Tem esses que são iguaizinhos a mim
Tem esses que se vestem e se calçam igual a mim
Mas que são diferentes da diferença entre nós

É tudo bom e nada presta. (PATROCÍNIO, 2009, p. 55)

Como instrumento de resistência, a fala de Stela é uma libertação do controle dos corpos e das individualidades presentes no sistema de internação psiquiátrica. Ouve-se respirações, pausas, frenesis. Stela repete cinco vezes em uma gradação: “Não sei o que tem aqui dentro”. Na organização textual, feita por Viviane Mosé, esse trecho da gravação se transforma em três repetições, versos organizados sob controle na folha (PATROCÍNIO, 2009, p. 81). O falatório escrito garante a permanência do texto de Stela diante da precariedade dos registros feitos à época de seu falatório e também uma abertura para os estudos críticos acadêmicos, embora não traduzam a experiência das performances corporal e vocal da artista.
A cadência da voz de Stela, a pronúncia inteligível de cada palavra se mistura com atravessamentos físicos: da boca sem nenhum dente[2] que confere a essa voz uma vibração de revelação, uma categoria espiritual ligada às falas em transe, que podem remontar à mitologia dos pretos velhos que surgem de uma dimensão sacralizada da experiência coletiva da escravidão do negro. E essa relação de sacralidade e ancestralidade do negro na voz de Stela do Patrocínio não é ingênua. Estamos falando da colônia que, segundo o livro O asilo e a cidade: histórias da Colônia Juliano Moreira (2015), que reúne vários estudos sobre a instituição, era formada por pacientes marginalizados em sua maioria negros, mulheres e pobres. Foi na colônia Juliano Moreira que ficou conhecido, por exemplo, outro artista negro também interno, Arthur Bispo do Rosário.


Eu sou Stela do Patrocínio Bem patrocinada
Estou sentada numa cadeira
Pegada numa mesa nega preta e crioula
Eu sou uma nega preta e crioula
Que a Ana me disse.

(PATROCÍNIO, 2009, p. 58)

Os signos da loucura passam pelo conceito de exclusão. Foucault fala sobre a loucura na Idade Média e no Renascimento como presença no horizonte social, como um “fato estético” ou cotidiano. A loucura possuiria uma natureza de revelação. E, com o passar do tempo, a partir da Idade Moderna, a exclusão alcança a loucura e subtrai-se dela sentidos mais sensíveis e a ressignificam como doença mental a ser tratada e retirada das relações sociais.


No meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não se comunica mais com o louco; há, de um lado, o homem de razão que delega para a loucura o médico, não autorizando, assim, relacionamento senão através da universalidade abstrata da doença; há, de outro lado, o homem de loucura que não se comunica com o outro senão pelo intermediário de uma razão igualmente abstrata, que é ordem, coação física e moral, pressão anônima do grupo, exigência de conformidade. Linguagem comum não há; ou melhor, não há mais; a constituição da loucura como doença mental, no final do século XVIII, estabelece a constatação de um diálogo rompido, dá a separação como já adquirida, e enterra no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um tanto balbuciantes, nas quais se fazia a troca entre a loucura e a razão. A linguagem da psiquiatria, que é monólogo da razão sobre a loucura, só pode estabelecer-se sobre um tal silêncio [...]. Não quis fazer a história dessa linguagem; antes, a arqueologia desse silêncio. (FOUCAULT, 2006, p. 154)

A discussão da relação entre loucura e arte é complexa e passa obviamente pelo fascínio que o “obscuro da desrazão”[3] provoca. Mas, em termos sociais, podemos falar que a loucura tem sua parte de exclusão, silenciamento e marginalidade. São considerados loucos aqueles que não se adaptam a uma ordem social, que se destacam da normalidade e são isolados pela força. Suas particularidades e, muitas vezes, sua história pregressa são apagadas tanto pelo isolamento quanto pelo abandono. O signo da resistência surge neste cenário como possibilidade de pensar na função da voz e da palavra como posicionamento frente à exclusão e à invisibilidade.


Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha que falar Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada 
Eu sinto fome matam minha fome 
Fico cansada fala que tô cansada Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça Fico com sono matam meu sono
Quando eu reclamo

(PATROCÍNIO, 2009, p. 134)

Considerando essas categorias poéticas mediadas pela voz, a poeta e cantora Carol Dall Farra permite um aprofundamento da discussão principalmente no que se refere à performance poética do corpo negro feminino. Carol Dall Farra nasceu em 1995, em Duque de Caxias, região periférica do Rio de Janeiro localizada na Baixada Fluminense. A artista usa a voz e a palavra como instrumentos de resistência ao apagamento social de um grupo coletivo no qual está inserida: mulher, negra e periférica. Rompe a invisibilidade pela representatividade de sua voz e da performance poética.
Em Stela do Patrocínio, observamos a voz como resistência ao apagamento da individualidade imposto pela condição de interna na colônia psiquiátrica. Em Carol Dall Farra, a voz também surge como resistência ao apagamento não somente individual, mas coletivo de grupos sobreviventes e socialmente marginalizados.
Carol Dall Farra faz parte de um movimento poético muito importante e atuante no Rio de Janeiro que reúne vários jovens em batalhas poéticas ou, como são chamados, slams. No slam, normalmente, os participantes têm até três minutos para apresentarem sua performance uma poesia de autoria própria, sem adereços ou acompanhamento musical. O texto pode ser escrito previamente, mas também pode haver improvisação. Não regras sobre o formato da poesia. Esses coletivos poéticos cresceram em número, participação de poetas/artistas e mobilização de público ao longo dos anos. Tal popularidade está obviamente ligada ao poder de alcance da internet e das redes sociais. Diferente do movimento da poesia marginal da década de 70, em que a poesia escrita era distribuída/vendida em um número reduzido de exemplares, as performances de slam conseguem um alcance muito maior devido à facilidade de compartilhamento dos vídeos das performances e ao seu impacto gerado.
Os vídeos, embora não possam reviver a experiência da intensidade da presença do corpo da poeta, permitem um registro audiovisual da performance que funciona como um recorte fotográfico que acaba por excluir partes do acontecimento performático.


Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra. E nessa existência única, e somente nela, que se desdobra à história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou. Os vestígios das primeiras só podem ser investigados por análises químicas ou físicas, irrealizáveis na reprodução; os vestígios das segundas são o objeto de uma tradição, cuja reconstituição precisa partir do lugar em que se achava o original. (BENJAMIN, 1994, p. 167)





Carol Dall Farra Final do Slam das Minas, RJ, 2017. Foto: Bléia Campos.

Carol Dall Farra também coloca em destaque as discussões de gênero em sua trajetória artística por meio da temática em suas letras e poesias e também através de sua atuação no grupo que promove batalhas poéticas entre participantes mulheres, o Slam das Minas. Espaço de representatividade da mulher dentro de um cenário majoritariamente masculino que é o universo ligado à cultura do hip hop.
São mulheres negras que utilizam e se instrumentalizam da voz como forma de resistência contra imposições de estigmas sociais e culturais de apagamento. Carol Dall Farra surge com sua poesia falada e seu rap como armas de denúncia e de busca de ressignificação de sua experiência coletiva “a poesia amparou as minhas causas”, diz na entrevista em vídeo “A poesia de Mc Dall Farra” (2017) para o Canal Mulheres de Luta. Em seus poemas o corpo negro e a marginalização são temas recorrentes, como pode ser verificado naquele que lhe garantiu o terceiro lugar na edição de 2017 do Slam das Minas:


Na ponta do abismo lá vai a mãe preta.
Aguenta o infinito em um corpo que o grito socorro acusa suspeito
Não chora nem fala das mortes diárias
Pariu cinco vezes sem anestesia com falas no ouvido: Preto é firme
Teu corpo foi alvo da falta de amor
Teu peito batuca a dor de um dos filhos que ontem dormiu
Quando na escura da noite
Um corpo fardado mirou sem certeza por causa da cor 
Mas preto é forte eu sempre ouvi falar
Mãe preta resiste desde que não sabia o que era existir

(DALL FARRA, 2017)
Carol Dall Farra fala, na citada entrevista (2017), que, antes da poesia, pensava: “como não me calar como mulher negra, como não me calar como mulher periférica?” e, para ela, a poesia foi a resposta. A “poesia marginalizada”, como Dall Farra define, é um espaço de resistência; para a poeta, o ato de empunhar uma caneta para escrever um poema é vencer inúmeras barreiras impostas à juventude periférica. Ela cita a barreira do tráfico, do genocídio do povo negro e da carência educacional tão comum em lugares periféricos. Mas não são somente essas barreiras que a poesia vocalizada que vem desses corpos de sujeitos marginalizados enfrenta, há outras que circulam nos espaços de consumo e envolvem questões de legitimação. Escrever poesia é também adentrar nas discussões sobre o que é ser poeta, como é seu rosto, sua pele e qual é o CEP da poesia. Essas questões da violência e da exclusão podem ser vistas no trecho abaixo de poema performado na edição do Slam da Minas de 2017:


Eu tô acostumada com os picotes da vida] Com a falta de afeto
Desde menor sempre sozinha me amando sem entrelinha, me amar foi escolha minha

Porque eu vim para cumprir a função [...]
Mas agora o amor vende parece que tá em alta, mas tem lugar que ainda falta
Vai na quebrada perguntar
Pergunta pros menó, dos fuzil e das HK
Se com os trampos lá do morro, com pouco, dá pra comprar amor.
Se a pistola que não endola, mas na real defende agora, podendo amar o menor muito mais que tu e eu.
Senta ele e pergunta:
A cor da parede escondida. Se os furos decoram a vista ou fazem parte do acidente.
Que às vezes decora a gente que tá subindo o morro.

(DALL FARRA, 2017)
Paulo Franchetti, em depoimento para o site LyraCompoetics (2011), diz que “perguntar se a poesia é resistência é também perguntar se há resistência à poesia em nossa sociedade”. A ponderação é muito interessante porque propõe que pensemos o signo da resistência, não só como ato político ou ato afirmativo, mas também como forma de recusa e negação do outro. Resistir contém dessa forma uma oposição e uma posição de um sujeito, “opor a força própria à força alheia” (BOSI, 2002, p. 118), mas também resistência como uma não integração. Esses dois sentidos da palavra resistência dialogam com a trajetória dessas duas mulheres; suas vozes buscam dar abertura ao poético que nasce ou se manifesta pela oralidade em espaços de exclusão e retomam certos aspectos das discussões da crítica literária sobre o tema.
A literatura atualmente é um ambiente de disputa de diferentes grupos sociais que buscam no protagonismo a voz em primeira pessoa que, durante muito tempo, foi mediada por outras falas distantes de sua realidade. São vozes que interferem no status quo e causam atravessamentos que têm levado os estudos críticos a repensarem continuamente, ao longo do tempo, os espaços e as trajetórias canônicas da literatura.

Referências bibliográficas

ANTONACCI, Maria Antonieta. Memórias ancoradas em corpos negros. 2. ed. São Paulo: Educ, 2014.
BALBINO, Jéssica. Pelas margens: vozes femininas na literatura periférica. Campinas, 2016. Dissertação de Mestrado. 185p.
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. 6 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 165-196.
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita: a experiência limite. Trad. de João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2007.
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
DALL FARRA, Carol. “A poesia de Mc Dall Farra”. Canal Mulheres de Luta. 11 set. 2017. Disponível em https://youtu.be/vd3KuMD90pg. Acesso em 10 nov. 2017.
DALL FARRA, Carol. “Slam das Minas RJ – final 2017 – Carol Dall Farra”. Canal Slam das Minas RJ. 08 out. 2017. Disponível em https://youtu.be/DbQXy_jcCXE. Acesso em 10 nov. 2017.
DALL FARRA, Carol. “Slam das minas ‘Carol Dall Farra’”. 06 nov. 2017. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=dOsRRdxR62w Acesso em 10 nov. 2017.
FERREIRA, Débora Armelin. “O corpo negro como lugar de discurso”. Disponível em http://www.afreaka.com.br/notas/o-corpo-ne- gro-como-local-de-discurso/. Acesso em 20 nov. 2017.
FOUCAULT, Michel. “Loucura, literatura, sociedade”. In: Motta, Manoel Barbosa (Org.). Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária, p. 232-258. 2006.
FRANCHETTI, Paulo. “Poesia e resistência”. Nov. 2011. Disponível em http://paulofranchetti.blogspot.com.br/2012/05/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x_27.html. Acesso em 7 nov. 2017.
MOSÉ, Viviane. “Stela do Patrocínio uma trajetória poética em uma instituição psiquiátrica”. In: PATROCÍNIO, Stela do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. 2. ed. Rio de Janeiro: Beco Azougue Editorial, 2009, p. 13-35.
PATROCÍNIO, Stela do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome.
Org. Viviane Mosé. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2009.
VENANCIO, Ana Teresa; POTENGY, Gisélia Franco (Orgs.). O asilo e a cidade: Histórias da Colônia Juliano Moreira. Rio de Janeiro: Garamond, 2015.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2007.




[1] Este texto foi publicado como um dos capítulos do livro Bioescritas/Biopoéticas: pensamento em trânsito. Volume 2. São Paulo: Pontocom, 2018. 176p. ISBN 978-85-66048-98-8.
[2] Como descrito por Viviane Mosé em sua introdução ao livro (MOSÉ, 2009, p. 15).
[3] “É preciso voltar-se para as grandes obras sombrias da literatura e da arte para – talvez – ouvir novamente a linguagem da loucura. Goya, Sade, Hölderlin, Nietzsche, Nerval, Van Gogh, Artaud, essas existências nos fascinam pela atração que sentiram, mas também pela relação que cada uma parece ter mantido entre o saber obscuro da Desrazão e aquilo que o saber claro – o da ciência – chama de loucura” (BLANCHOT, 2007, p. 178).


http://www.editorapontocom.com.br/livro/59/bioescritas2_59_5b4e36a1e5669.pdf

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