NOS GASES EU ME FORMEI: UMA LEITURA SOBRE O CORPO EM STELA DO PATROCÍNIO
O texto a seguir foi escrito com a coautoria de Idemburgo Frazão e publicado originalmente na Revista E-scrita (ISSN 2177-6288 ) e pode ser acessado em: https://revista.uniabeu.edu.br/index.php/RE/article/view/3202/pdf

NOS GASES EU ME FORMEI: UMA LEITURA SOBRE O CORPO

NOS GASES EU ME FORMEI: UMA LEITURA SOBRE O CORPO
EM STELA DO
PATROCÍNIO
Fabiana Bazílio Farias
Idemburgo Pereira
Frazão
Loco soy, loco he de ser.
Miguel de Cervantes
Introdução
O corpo excluído produz uma voz urgente. Urgente porque não se sabe
quando e se deverá ser ouvida. Ou se haverá uma segunda chance. Ela rompe uma
limitação gerada pela invisibilidade que os corpos marginalizados produzem.
Precisa agir a partir de um impulso que confere luminosidade à sua
individualidade que também é parte de um corpo coletivo. A voz, dessa forma,
mesmo individualizada, carrega os emblemas de exclusão inerentes ao grupo ao
qual pertence.
Essa urgência necessária tenta se impor ao fluxo dos discursos que
silenciam, abrindo espaço entre ruídos e criando presença nas significações
produzidas dentro desse embate de forças em que se envolvem corpo e voz. A arte
é muitas vezes o impulso capaz de abrir espaço nesse fluxo constituído de
silenciamentos, bloqueios de vozes e corpos; espaço congestionado de conceitos
prévios e estereótipos estigmatizados. É no movimento libertador da arte que a
voz e o corpo dos excluídos recebem impulso necessário para fugir ao
apagamento, transbordar-se. A obra de Stela do Patrocínio surge nesta margem,
onde voz, corpo, poesia, loucura e exclusão produzem novos sentidos e tentam
restaurar um instante de existência em que todas essas categorias convergem em uma
performance vocalizada, um devir poético.
A maior parte de sua vida foi como interna da Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá,
Rio de Janeiro. A instituição, inaugurada em 1924, teve seu momento de ápice na
década de 1940, quando recebeu um número significativo de pacientes. Stela do Patrocínio
foi internada na instituição em 1966, transferida do Centro Psiquiátrico Pedro II
onde já havia passado quatro anos. Ricardo Aquino, no prefácio ao livro Reino
dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2009),
afirma que Stela do Patrocínio é uma sobrevivente: da mortificação, do
apagamento da individualidade e da possibilidade de uma lobotomia (2009, pp.
9-10). Sua fala ter alcançado visibilidade permitiu que muitas discussões
posteriores (como a deste artigo) garantissem mais do que a permanência da sua
memória, mas o registro de sua existência em um cenário em que o abandono e o
esquecimento são o desfecho corriqueiro de incontáveis vidas do sistema psiquiátrico.
Dessa maneira, o presente artigo inicialmente procura contextualizar a
relação da loucura com a arte a partir das discussões fomentadas por Michel
Foucault para, em seguida, abordar a obra de Stela do Patrocínio privilegiando
uma discussão que destaque a perspectiva racial e de gênero em sua fala. Será
considerada sua condição de interna na Colônia
Juliano Moreira para refletir sobre o lugar marginalizado de onde esta voz é proferida,
dando destaque às representações do corpo presentes em seus textos organizados
em livro.
Saberes
sobre o corpo e a loucura
A loucura tem sido um lugar historicamente marcado pela exclusão. M.
Foucault, em História da loucura (1978), descreve que os leprosos
ocuparam durante muito tempo os espaços às margens da sociedade, muitas vezes
empurrados para fora dos portões da cidade, ou reclusos em um dos inúmeros
leprosários que existiram na Europa. Da Alta Idade Média até o final das
Cruzadas (p. 7), os leprosários eram numerosos e representavam um lado sombrio
e ao mesmo tempo místico-religioso relacionado aos sentidos de purificação e
penitência dos pecados pela doença. O rosto da lepra era a representação do
poder vingativo e salvador de Deus, aquele que castiga e salva pela expiação
dos pecados por meio do sofrimento tal qual no exemplo do personagem bíblico Lázaro
citado em uma das parábolas de Jesus.
Diante do
desaparecimento da doença e do esvaziamento dos leprosários, surgiu um espaço
vazio de exclusão, como descreve o autor:
Desaparecida a lepra, apagado (ou quase)
o leproso da memória, essas estruturas permanecerão. Frequentemente nos mesmos
locais, os jogos da exclusão serão retomados, estranhamente semelhantes aos
primeiros, dois ou três séculos mais tarde. Pobres, vagabundos, presidiários e
"cabeças alienadas" assumirão o papel abandonado pelo lazarento, e
veremos que salvação se espera dessa exclusão, para eles e para aqueles que os
excluem. Com um sentido inteiramente novo, e numa cultura bem diferente, as
formas subsistirão — essencialmente, essa forma maior de uma partilha rigorosa
que é a exclusão social, mas reintegração espiritual. (FOUCAULT, 1978, p. 10)
O autor observa que, no espaço vazio deixado pela lepra, sucede um novo fenômeno,
herdeiro dos temores e dos sentidos de exclusão que a doença suscitava (FOUCAULT,
1978, p. 12). O conceito de loucura sofre uma ruptura nessa passagem, o louco
que possuía um lugar específico na realidade social passa a ocupar o espaço da doença
e da exclusão:
Na Idade Média, e depois no
Renascimento, a loucura está presente no horizonte social como um fato estético
ou cotidiano; depois, no século XVII – a partir da internação – a loucura
atravessa um período de silêncio, de exclusão. Ela perdeu essa função de
manifestação, de revelação que ela tinha na época de Shakespeare e de
Cervantes. (FOUCAULT, 2006, p. 163 apud PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1517)
Já no século XIX, houve um movimento de afastar os considerados loucos do
confinamento com outros excluídos (homossexuais, hereges, libertinos etc.) para
que fosse dado a eles um tratamento apropriado. Este cenário foi resultado das
mudanças propostas por Philippe Pinel (1745-1826), influenciado pelas ideias
provenientes do Iluminismo e da Revolução Francesa. P. Pinel reforça o caráter
disciplinador no tratamento do louco dando destaque a uma relação moral com a
loucura. Com o passar do tempo, das ideias revolucionárias e do fim do grande
enclausuramento propostos por Pinel, sobressaíram-se as práticas de correção
comportamental, proliferando o tratamento punitivo dado aos doentes mentais
durante o século XIX. O corpo do louco passou a ser espaço de torturas, o que
reforçava os sentidos de purificação da mente pelo sofrimento do corpo. Apesar
desse viés, foi nesse período que a loucura passou também a ser domínio da
ciência.
Desse contexto, interessa-nos a forma como o corpo do louco foi vitimado
pela violência dos tratamentos, pelo silenciamento e isolamento. No século XX,
com o advento da psicanálise, observou-se uma tentativa de tornar inteligível a
fala do louco, permitindo um diálogo entre o louco e o são, sendo este último
aquele capaz de desvendar/interpretar a linguagem da loucura (PROVIDELLO e
YASUI, 2013, p. 1520). A partir dessa abertura para o diálogo com o louco e o
advento das novas formas de terapia que vieram a partir da reforma manicomial,
as artes tornaram-se um espaço de fluxo nesse limite entre loucura e sanidade.
As figuras do gênio louco e do artista louco (veja os exemplos de Antonin
Artaud e Van Gogh, para citar alguns) também contribuíram para repensar o
discurso da loucura como uma forma de experiência de uma “verdade”.
Esta relação entre loucura, arte e genialidade privilegia obviamente um
recorte de raça, classe e gênero muito específico. Contudo, quando tratamos do
perfil dos internos da Colônia Juliano Moreira durante o século XX, período em
que Stela do Patrocínio esteve internada, estamos falando de um grupo
marcadamente composto por figuras que vivem às margens da sociedade: negros,
mendigos, desempregados, índios etc. Aqueles que formam um corpo perigoso para
a ordem pública, que destoam e nem sempre representam um risco para o convívio
social, mas são confinados durante grande parte da vida. As instituições
psiquiátricas, dessa forma, apresentam-se para dar uma solução moral e de
ordenamento ao espaço público, isolando e apagando os corpos e as vozes que incomodavam
a “sociedade de bem”.
Como a vadiagem era uma das doenças
sociais da época, vagabundos eram por vezes internados como indigentes – uma
prática tão antiga quanto a Grande Internação do século XVII. Após a
identificação, caso fossem mulatos, negros e/ou pobres, caíam na vala comum do
hospício até o resgate por parte das famílias. E assim a psiquiatria brasileira
acumulou números bárbaros: um censo realizado em 1981 na Colônia Juliano
Moreira revelou que 22% da população de alienados, internados ali desde a
década de 1930, jamais haviam apresentado qualquer quadro psiquiátrico.
Abandonados pelas famílias de origem, sob a tutela do Estado, tinham-se perdido
nos trâmites burocráticos da instituição e na insanidade alheia, sem condições
financeiras para a restituição da cidadania – eram, simplesmente, mendigos.
(HIDALGO, 2008, p. 36)
A invisibilidade, fruto do gênero, da etnia e da classe social de Stela
do Patrocínio, é tema recorrente em seu falatório[1],
como veremos mais à frente. Inclusive, na forma das violências que esse
território demarcado provoca em seu corpo. É interessante observar que, da
produção artística dos internos da Colônia Juliano Moreira, dois nomes que obtiveram
destaque nas Artes Visuais e na Literatura sejam de duas pessoas negras de classe
social baixa: a própria Stela e o artista plástico Arthur Bispo do Rosário[2].
Zygmunt Bauman, em seu Vidas desperdiçadas (2005), traz o conceito
de “refugos humanos” que permite refletir sobre um mecanismo de produção de
dejetos humanos a partir de uma lógica de “modernização” da sociedade.
A produção de “refugo humano”, ou, mais
propriamente, de seres humanos refugados (os “excessivos” e “redundantes”, ou
seja, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos ou obter permissão
para ficar), é um produto inevitável da modernização, e um acompanhante
inseparável da modernidade. É um inescapável efeito colateral da construção da
ordem e do progresso econômico. (BAUMAN, p. 12)
A imagem utilizada por Bauman é o contraponto que queremos destacar em relação
à imagem do “gênio louco” e do “artista louco” que está em nosso imaginário cultural/social.
Mais do que destoar da ordem social, ser uma voz dissonante, estamos falando de
uma voz que vem do centro de um lugar de exclusão gerado pelo que é considerado
avanço social. Arthur Bispo do Rosário construía suas obras do que era descartado
pela sociedade, e Stela do Patrocínio escrevia alguns de seus textos em papelões
que se perderam. É importante pontuar essas questões porque elas incidem diretamente
na reflexão que iremos realizar sobre o corpo no falatório de Stela do Patrocínio.
Sobre qual corpo estamos falando?
O corpo e a voz em Stela do Patrocínio
Os registros em áudio das falas de Stela do Patrocínio são os mais
conhecidos e permitiram, após a sua morte, a publicação do livro Reino dos
bichos e dos animais é o meu nome (2009); trabalho de transposição feito
por Viviane Mosé, que organiza o material em texto escrito, possibilitando uma
percepção crítica a partir dos paratextos que o acompanham (prefácio e
apresentação).
Contudo, há também alguns registros em vídeo, fragmentos de entrevistas
que podem ser vistos, por exemplo, no documentário de 15 minutos de 2006,
“Stela do patrocínio, a mulher que falava coisas”, dirigido por Márcio de
Andrade. Apesar de se concentrar em sua maior parte no áudio dos falatórios, as
cenas em movimento de Stela do Patrocínio, esses raros registros do corpo,
permitem um outro contato com a artista para a elaboração de sua personagem
poético-artística.
Os registros em vídeo de Stela aparecem no documentário em meio às
sequências de imagens que amparam a voz gravada e recompõem, sem almejar uma
integralidade, o corpo em flashes, destacando gestos, trejeitos, poses da
protagonista do vídeo. As palavras são atravessadas por fotos de Stela do
Patrocínio, da Colônia Juliano Moreira e outras imagens experimentais. As
estratégias de composição utilizadas no vídeo permitem pensar a partir das
alternâncias entre quadros que dialogam ora com a individualidade do corpo de
Stela, ora com um espaço de coletividade (instituições psiquiátricas e de seus
pacientes), de dar voz àqueles que não a possuem. Pensar o olhar do outro sobre
esse corpo e como esse afeta e é afetado por aquilo que o cerca.
Essa composição-mosaico no documentário entre os rostos anônimos dos
internos e o close no rosto de Stela do Patrocínio reforça a dicotomia entre um
corpo coletivo e o corpo individualizado nas instituições psiquiátricas. Na
perspectiva dessa relação, pensar num corpo-coletivo é entender que este é
afetado (no sentido de repressão e liberdade) de forma social e não somente
individualizada. Em alguns textos sobre a poeta, é recorrente a expressão, com
algumas variações, “Stela se destacava dos outros pacientes”. O destaque surge
de uma previsibilidade de apagamento que instituições psiquiátricas fazem com
as identidades que ali entram. Tornam-se números, doenças, tratamentos e abandonos.
A epígrafe de Pablo Milanés (grafado Milanez no livro), verso da música “Canción
por la unidad Latinoamericana”, que abre a introdução de O reino dos bichos
e dos animais é o meu nome e que diz “O que brilha com luz própria ninguém
pode apagar”, reforça esse sentido de brilho individual que também está
presente no título do texto, “Estrela”, jogo de palavras entre Stela-Estrela.
Aquela que brilha na escuridão.
O falatório de Stela do Patrocínio fascina porque parece mobilizar um conhecimento,
um “saber” perdido ou inalcançável. Joga com questões que estão na superfície
dos nossos questionamentos sobre os limites entre razão e desrazão, resquício talvez
da relação com a loucura que Michel Foucault (1978) descreve que era vista durante
o Renascimento com certa cordialidade antes do silenciamento imposto pelo advento
da razão no ocidente no Classicismo.
O corpo do louco é vitimado com a
exclusão tal qual os leprosos e os heréticos o foram em outras épocas, mas essa
não é a vitimização única que se abate sobre a loucura: Foucault demonstra com
clareza que a loucura, após o Renascimento, foi capturada por um discurso amplo
que a desqualificava enquanto linguagem, pois a enredava em um jogo de forças
com a razão, razão essa que se tornava o ponto alto do regime de verdades
ocidental. Enquanto isso, a loucura se tornava uma linguagem falsa, incapaz de
falar a verdade. A loucura tornou-se, ao longo da Idade Clássica, linguagem
interdita. Entretanto, não só ela foi excluída nessa grande internação ocorrida
a partir do século XVII: toda outra miríade de linguagens foi fechada pela
sociedade em hospitais gerais, e todas elas acabaram por ser excluídas do
domínio da verdade e ligadas à desrazão. (PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1520)
Sobre os discursos, Foucault (1996) apresenta três procedimentos
referentes à sua exclusão em nossa sociedade:
1. A palavra proibida: que consiste nos procedimentos de controle em
que são determinados aquilo que pode ser dito ou não, controlando os discursos.
2. A palavra excluída: que representa o elemento marginalizado (louco)
3. A vontade de verdade: que exerce um poder coercitivo, uma verdade
que justifica as exclusões.
Dessa forma, o discurso se constitui como poder de controle, coercitivo e
perpetuador das exclusões sociais. No âmbito da discussão da fala do louco,
Foucault afirma que, de um caráter interdito, ela surge “[...] como uma palavra
que envolve a si própria, dizendo por baixo daquilo que diz outra coisa, da
qual ela é, ao mesmo tempo, o código único possível” (FOUCAULT, 2006, p. 216
apud PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1521). De certa forma, o que se torna palavra
reverbera em si mesmo, potencializando não apenas a unidade oracional, mas o
signo linguístico, mostrando que podem apontar para sentidos desconhecidos.
De modo geral, pode-se dizer que as palavras que compõem o falatório de
Stela do Patrocínio são reconhecíveis. Mas o que nos surpreende é o modo como
se relacionam umas com as outras, como as combinações inusitadas ganham
significados caleidoscópios, rebelados de um ordenamento racional e que
conversam com uma tradição de transe que remete às falas dos pretos velhos na
mitologia das religiões brasileiras de matriz africanas. Ou à ladainha
religiosa, repetitiva que segue num crescente, abrindo para cada repetição a
possibilidade de um significado oculto que se revele ao final como um gozo
hipnótico, nos forçando a refazer nosso olhar não só sobre as palavras, mas
também sobre o corpo marginalizado do louco. O trecho a seguir é bastante
emblemático desse recurso da repetição no falatório de Stela do Patrocínio.
Eu não tenho cabeça boa não
Não sei o que tem aqui dentro
Não sei o que tem aqui dentro
Não sei o que tem aqui dentro
Eu sei que tem olho
Mas olho pra fazer enxergar como?
Quem bota pra enxergar
se não sou eu que boto pra enxergar?
Eu acho que é ninguém
Enxerga sozinho
Ele se enxerga sozinho
(PATROCÍNIO, 2009, p. 81)

Na publicação Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2009), há divisões que funcionam como eixo de sentidos propostos pela organizadora do livro, Viviane Mosé. A parte V, intitulada “A parede ainda não era pintada de tinta azul”, traz textos regidos mais explicitamente pelo eixo de sentido corpo/sexualidade. Viviane Mosé (2009) descreve tal conexão temática das falas transcritas como uma “perplexidade diante do corpo” (p. 21) também característica de outras falas de Stela do Patrocínio. As marcas das experiências de violência, resultado da exclusão e da invisibilidade dos corpos, aparecem de forma bastante explícita, como veremos a seguir:
Eu fui agarrada quando eu estava sozinha
Não conhecia ninguém não conhecia nada
Não via ninguém não via nada
Nada de cabeça e corpos
Nada de casa nada de mundo
Eu não conhecia nada eu era ignorante
Depois que eu fui agarrada para relação sexual e
pra foder
Depois, só depois eu comecei a ter noção e ficar
sabendo
Antes eu não fazia nada
Não dependia de nada
Não fazia nada
Era como uma parasita
Uma paralisia um câncer
(PATROCÍNIO, 2009, p. 94)
O corpo surge no poema a partir da temática da violência sexual que
aponta para um cenário mais amplo relacionado ao histórico da reforma
psiquiátrica no Brasil em que as questões de gênero no ambiente de internação
psiquiátrica foram esquecidas. Em especial, as implicações que a violência
sexual acarretam no adoecimento mental das mulheres, tanto em confinamento como
fora das instituições psiquiátricas. “Eu fui agarrada quando eu estava
sozinha”, o impacto do primeiro verso coloca o corpo em confronto com uma
realidade social, comprovada nas diversas denúncias que podem ser facilmente
localizadas sobre violência sexual em hospitais psiquiátricos. Isolamento, abandono
e muitas vezes conivência de setores da instituição revelam a face violenta do comportamento
humano diante de corpos fragilizados e sem voz (a palavra excluída)[3].
Tal quadro também resgata o conceito de histerização do corpo da
mulher que, segundo Foucault (1988), trata de processo em que este corpo
(sexualmente potente) é analisado e constitui-se uma ameaça patológica (p. 98).
Observa-se no poema a repetição de uma mensagem acerca do desconhecimento (“Não
conhecia ninguém não conhecia nada”, “Eu não conhecia nada eu era ignorante”
e “Depois, só depois eu comecei a ter noção e ficar/sabendo”),
desconhecimento anterior à violência sexual, desconhecimento que estabelece uma
fronteira entre um abrupto e violento conhecimento da própria sexualidade, do
próprio corpo. O lamento que surge nos versos aponta para si certa responsabilidade
sobre o acontecimento, como se o desconhecimento fosse também o provocador da
situação. Não há a descrição de outro corpo completo, mas de uma alteridade
fragmentada, a figura do agente da violência descrita se presentifica pela ausência
sinalizada: “Não via ninguém não via nada/ Nada de cabeça e corpos”. É
possível fazer a leitura de que a violência, na assimilação dessa experiência,
não é realizada por um agente individualizado, dotado de rosto, corpo e nome,
mas por um poder que invade os corpos excluídos, como se a vulnerabilidade dos
corpos à margem fosse um destino ao qual não se escapa.
A recusa em ver esse outro é também a recusa de assimilação do episódio.
Há uma clara divisão existencial a partir dele e que marca o início de um
“conhecimento” que não é libertador do corpo. “Antes eu não fazia nada/ Não
dependia de nada/ Não fazia nada/ Era como uma parasita/ Uma paralisia um
câncer”. O episódio também não traz uma modificação nesse estado de
lamento, a violência, ao contrário, aprisiona o corpo nesse instante. É
interessante observar que há um discurso distinto nos trechos em que o corpo saturado
de sexualidade (FOUCAULT, 1988) se revela como podemos verificar a seguir:
Tive na avenida Rio Branco
A rua inteirinha cheia de homens
E eu me alimentei bem alimentada
Eles me deram alimentação de vitamina de abacate
De mamão de banana de aveia
Tive na Avenida rio Branco
Tive na avenida Presidente Vargas
Tive na Nilo Peçanha
Tive na Avenida de Nossa Senhora de Copacabana
Em Copacabana tive muitos homens mesmo
(PATROCÍNIO, 2009, p. 91)
Mulher negra, Stela do Patrocínio apresenta dois pontos importantes sobre
a discussão da sexualidade dos marginalizados. Se no poema anterior observamos
a violência sexual (resgatando uma memória coletiva de violações que o corpo do
negro e, em especial, da mulher negra, sofre desde a chegada dos primeiros
negros escravizados ao Brasil), no texto seguinte observa-se a
hiperssexualização do corpo da mulher negra, na sexualidade descrita em
parceiros que se espalham na cartografia da cidade do Rio de Janeiro (Avenida
Rio Branco, Avenida Nilo Peçanha, Avenida Nossa Senhora de Copacabana). O corpo
negro feminino, invisível e indesejado, é também o corpo exótico, “da cor do
pecado”, disponível para o prazer dos senhores da Casa Grande e para o ódio das
sinhás que infligiam torturas e mutilações para as mulheres negras que eram
alvo do desejo dos maridos. A objetificação do corpo da mulher negra é
resultado de uma cultura do patriarcado e do racismo que conferem a esse corpo
sentidos de promiscuidade, interdição
para uma relação monogâmica. A maternidade é outro tema em que atravessam os
estigmas da loucura e do racismo:
Eu já produzi uma criança no colo outra no corpo
Sem eu saber que estava produzindo uma criança
Pequena
De tamanho grande e de saúde
Eu também estava com saúde
Era Rio de Janeiro
Ainda era Botafogo
Eu me confundi comendo pão ganhando pão
(2009, p. 96)
Os dados biográficos sobre a vida de Stela são muito imprecisos, não é
possível afirmar que ela teve filhos, os fragmentos do falatório podem até
apontar para uma biografia, mas são também discursos mediados pela fragilidade
da memória, da subjetividade e do compartilhamento de experiências. Mas não
escapam de uma interpretação relacionada ao que viemos discutindo nesse artigo,
sobre os sentidos do corpo na produção de Stela do Patrocínio. A maternidade
também é outra marca de exclusão para o corpo da mulher negra, uma imagem
emblemática do racismo no Brasil é a fotografia (1860) de João Ferreira Villela
intitulada “Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica”[4].
A fotografia traz a ambiguidade da proximidade e subordinação do corpo negro,
estrutura perpetuada na cultura do “é quase da família” que ainda rege as
relações trabalhistas no serviço doméstico no Brasil. A figura da ama de leite na
fotografia de Vilella diz muito sobre o verso “uma criança no colo outra no
corpo” do falatório. A imagem de uma maternidade negada se prolonga no trecho
seguinte do livro em que podemos ver certo distanciamento entre mãe e filho:
Tá respirando tá enxergando tá ouvindo vozes
Tá com dentes completos e fortes
Tá com um pouquinho de cabeleira
Tá de brinco tá bem vestida bem calçada
Toda quarta feira você vem
Já tá com cabeça
Tá com pele tá com carne tá com ossos
(2009, p. 97)
O trecho traz a cena de uma visita, visita do filho(a) à mãe. Stela pode
ser a mãe que observa o corpo do filho, suas pequenas mudanças, seu asseio, mas
ela também pode ser a filha que visita que é levada para receber o olhar
materno (a mãe de Stela do Patrocínio também teria sido interna do Núcleo
Teixeira Brandão). Olhar de mãe e filha que se tornam um só. O texto também
traz essa imagem recorrente nos textos de formação do corpo, de uma materialidade
que está sempre desconstruída e que possui seu ápice na metáfora dos gases que
percorre seu falatório: “Eu era gases puro, ar, espaço, vazio, tempo/ Eu era
ar, espaço vazio, tempo/ E gases puro, assim, ó espaço vazio, ó/ Eu não tinha
formação/ Não tinha formatura” (p. 74).
O corpo, que, ao mesmo tempo, traz as marcas de uma experiência coletiva
de uma perspectiva étnica, de gênero, é também o corpo que, a todo momento, não
consegue se “construir”. Espalha-se pelos espaços, pelo vazio. A cabeça que não
fica na cabeça, o corpo que não quer ser mais corpo.
É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
(2009, p. 44)
O poder de controle é representado nessas vozes que surgem
de forma recorrente no falatório de Stela do Patrocínio e que tentam impor uma
ordem à materialidade do corpo. Repetindo o lugar de cada coisa, mesmo que não
haja mais corpo/cabeça para ordenar. Tudo se espalha, se desfazendo e se
multiplicando. O falatório de Stela descontínuo é espelho desse corpo que traz
as marcas da exclusão e da marginalidade, mas também quer ser mais e se lança
para o espaço sem nome, sem “formatura”. Gases.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro:
Zahar, 2005.
COELHO, Teixeira. “A arte não revela a verdade da loucura, a
loucura não detém a verdade da arte”. In: ANTUNES, E. H.; Barbosa, L. H. S.;
PEREIRA, L. M. de F. (Org.). Psiquiatria, loucura e arte: fragmentos da
história brasileira. São Paulo: Edusp. 2002, pp. 147-163.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica.
São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.
______. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições
Loyola, 1996.
______. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1988, v. 1.
HIDALGO, Luciana. Literatura da urgência: Lima Barreto no
domínio da loucura. São Paulo: Annablume, 2008.
MOSÉ, V. “Stela do Patrocínio – uma trajetória poética em uma
instituição psiquiátrica”. In: PATROCÍNIO, S. Reino dos bichos e dos animais
é o meu nome. 2. ed. Rio de Janeiro: Beco Azougue Editorial, 2009. pp.
13-35.
PATROCÍNIO, Stela do. Reino dos bichos e dos animais é o
meu nome. MOSÉ, Viviane (Org). 2. ed. Rio de Janeiro: Azougue Editorial,
2009.
PROVIDELLO, G. G. D.; YASUI, S. “A loucura em Foucault: arte
e loucura, loucura e desrazão”. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro,
v. 20, n. 4, pp. 1515-1529, dez. 2013. Disponível em:
http://ref.scielo.org/gsp78h. Acesso em 20 fev. 2018.
VENANCIO, A. T.; POTENGY, G. F. (Org.) O asilo e a
cidade: Histórias da Colônia Juliano Moreira. Rio de Janeiro: Garamond,
2015.
[1] Falatório
é a expressão utilizada por Stela do Patrocínio quando se refere às suas falas.
[2] O livro
editado com o falatório de Stela do Patrocínio foi finalista do Prêmio Jabuti e
Arthur Bispo do Rosário é conhecido internacionalmente com exposições de suas
obras em diversos países.
[3] Cf.
Foucault, 1996.
[4] Disponível
em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra19781/augusto-gomes-leal-com-a-ama-deleite-monica>.
Acesso em: 01 de Fev. 2018.
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