NOS GASES EU ME FORMEI: UMA LEITURA SOBRE O CORPO EM STELA DO PATROCÍNIO

by - julho 03, 2019


O texto a seguir foi escrito com a coautoria de Idemburgo Frazão e publicado originalmente na Revista E-scrita (ISSN 2177-6288 ) e pode ser acessado em: https://revista.uniabeu.edu.br/index.php/RE/article/view/3202/pdf


NOS GASES EU ME FORMEI: UMA LEITURA SOBRE O CORPO
EM STELA DO PATROCÍNIO
Fabiana Bazílio Farias
Idemburgo Pereira Frazão


Loco soy, loco he de ser.
Miguel de Cervantes
Introdução

O corpo excluído produz uma voz urgente. Urgente porque não se sabe quando e se deverá ser ouvida. Ou se haverá uma segunda chance. Ela rompe uma limitação gerada pela invisibilidade que os corpos marginalizados produzem. Precisa agir a partir de um impulso que confere luminosidade à sua individualidade que também é parte de um corpo coletivo. A voz, dessa forma, mesmo individualizada, carrega os emblemas de exclusão inerentes ao grupo ao qual pertence.
Essa urgência necessária tenta se impor ao fluxo dos discursos que silenciam, abrindo espaço entre ruídos e criando presença nas significações produzidas dentro desse embate de forças em que se envolvem corpo e voz. A arte é muitas vezes o impulso capaz de abrir espaço nesse fluxo constituído de silenciamentos, bloqueios de vozes e corpos; espaço congestionado de conceitos prévios e estereótipos estigmatizados. É no movimento libertador da arte que a voz e o corpo dos excluídos recebem impulso necessário para fugir ao apagamento, transbordar-se. A obra de Stela do Patrocínio surge nesta margem, onde voz, corpo, poesia, loucura e exclusão produzem novos sentidos e tentam restaurar um instante de existência em que todas essas categorias convergem em uma performance vocalizada, um devir poético.
A maior parte de sua vida foi como interna da Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. A instituição, inaugurada em 1924, teve seu momento de ápice na década de 1940, quando recebeu um número significativo de pacientes. Stela do Patrocínio foi internada na instituição em 1966, transferida do Centro Psiquiátrico Pedro II onde já havia passado quatro anos. Ricardo Aquino, no prefácio ao livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2009), afirma que Stela do Patrocínio é uma sobrevivente: da mortificação, do apagamento da individualidade e da possibilidade de uma lobotomia (2009, pp. 9-10). Sua fala ter alcançado visibilidade permitiu que muitas discussões posteriores (como a deste artigo) garantissem mais do que a permanência da sua memória, mas o registro de sua existência em um cenário em que o abandono e o esquecimento são o desfecho corriqueiro de incontáveis vidas do sistema psiquiátrico.
Dessa maneira, o presente artigo inicialmente procura contextualizar a relação da loucura com a arte a partir das discussões fomentadas por Michel Foucault para, em seguida, abordar a obra de Stela do Patrocínio privilegiando uma discussão que destaque a perspectiva racial e de gênero em sua fala. Será considerada sua condição de interna na  Colônia Juliano Moreira para refletir sobre o lugar marginalizado de onde esta voz é proferida, dando destaque às representações do corpo presentes em seus textos organizados em livro.

Saberes sobre o corpo e a loucura
A loucura tem sido um lugar historicamente marcado pela exclusão. M. Foucault, em História da loucura (1978), descreve que os leprosos ocuparam durante muito tempo os espaços às margens da sociedade, muitas vezes empurrados para fora dos portões da cidade, ou reclusos em um dos inúmeros leprosários que existiram na Europa. Da Alta Idade Média até o final das Cruzadas (p. 7), os leprosários eram numerosos e representavam um lado sombrio e ao mesmo tempo místico-religioso relacionado aos sentidos de purificação e penitência dos pecados pela doença. O rosto da lepra era a representação do poder vingativo e salvador de Deus, aquele que castiga e salva pela expiação dos pecados por meio do sofrimento tal qual no exemplo do personagem bíblico Lázaro citado em uma das parábolas de Jesus.
Diante do desaparecimento da doença e do esvaziamento dos leprosários, surgiu um espaço vazio de exclusão, como descreve o autor:
Desaparecida a lepra, apagado (ou quase) o leproso da memória, essas estruturas permanecerão. Frequentemente nos mesmos locais, os jogos da exclusão serão retomados, estranhamente semelhantes aos primeiros, dois ou três séculos mais tarde. Pobres, vagabundos, presidiários e "cabeças alienadas" assumirão o papel abandonado pelo lazarento, e veremos que salvação se espera dessa exclusão, para eles e para aqueles que os excluem. Com um sentido inteiramente novo, e numa cultura bem diferente, as formas subsistirão — essencialmente, essa forma maior de uma partilha rigorosa que é a exclusão social, mas reintegração espiritual. (FOUCAULT, 1978, p. 10)

O autor observa que, no espaço vazio deixado pela lepra, sucede um novo fenômeno, herdeiro dos temores e dos sentidos de exclusão que a doença suscitava (FOUCAULT, 1978, p. 12). O conceito de loucura sofre uma ruptura nessa passagem, o louco que possuía um lugar específico na realidade social passa a ocupar o espaço da doença e da exclusão:
Na Idade Média, e depois no Renascimento, a loucura está presente no horizonte social como um fato estético ou cotidiano; depois, no século XVII – a partir da internação – a loucura atravessa um período de silêncio, de exclusão. Ela perdeu essa função de manifestação, de revelação que ela tinha na época de Shakespeare e de Cervantes. (FOUCAULT, 2006, p. 163 apud PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1517)
Já no século XIX, houve um movimento de afastar os considerados loucos do confinamento com outros excluídos (homossexuais, hereges, libertinos etc.) para que fosse dado a eles um tratamento apropriado. Este cenário foi resultado das mudanças propostas por Philippe Pinel (1745-1826), influenciado pelas ideias provenientes do Iluminismo e da Revolução Francesa. P. Pinel reforça o caráter disciplinador no tratamento do louco dando destaque a uma relação moral com a loucura. Com o passar do tempo, das ideias revolucionárias e do fim do grande enclausuramento propostos por Pinel, sobressaíram-se as práticas de correção comportamental, proliferando o tratamento punitivo dado aos doentes mentais durante o século XIX. O corpo do louco passou a ser espaço de torturas, o que reforçava os sentidos de purificação da mente pelo sofrimento do corpo. Apesar desse viés, foi nesse período que a loucura passou também a ser domínio da ciência.
Desse contexto, interessa-nos a forma como o corpo do louco foi vitimado pela violência dos tratamentos, pelo silenciamento e isolamento. No século XX, com o advento da psicanálise, observou-se uma tentativa de tornar inteligível a fala do louco, permitindo um diálogo entre o louco e o são, sendo este último aquele capaz de desvendar/interpretar a linguagem da loucura (PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1520). A partir dessa abertura para o diálogo com o louco e o advento das novas formas de terapia que vieram a partir da reforma manicomial, as artes tornaram-se um espaço de fluxo nesse limite entre loucura e sanidade. As figuras do gênio louco e do artista louco (veja os exemplos de Antonin Artaud e Van Gogh, para citar alguns) também contribuíram para repensar o discurso da loucura como uma forma de experiência de uma “verdade”.
Esta relação entre loucura, arte e genialidade privilegia obviamente um recorte de raça, classe e gênero muito específico. Contudo, quando tratamos do perfil dos internos da Colônia Juliano Moreira durante o século XX, período em que Stela do Patrocínio esteve internada, estamos falando de um grupo marcadamente composto por figuras que vivem às margens da sociedade: negros, mendigos, desempregados, índios etc. Aqueles que formam um corpo perigoso para a ordem pública, que destoam e nem sempre representam um risco para o convívio social, mas são confinados durante grande parte da vida. As instituições psiquiátricas, dessa forma, apresentam-se para dar uma solução moral e de ordenamento ao espaço público, isolando e apagando os corpos e as vozes que incomodavam a “sociedade de bem”.

Como a vadiagem era uma das doenças sociais da época, vagabundos eram por vezes internados como indigentes – uma prática tão antiga quanto a Grande Internação do século XVII. Após a identificação, caso fossem mulatos, negros e/ou pobres, caíam na vala comum do hospício até o resgate por parte das famílias. E assim a psiquiatria brasileira acumulou números bárbaros: um censo realizado em 1981 na Colônia Juliano Moreira revelou que 22% da população de alienados, internados ali desde a década de 1930, jamais haviam apresentado qualquer quadro psiquiátrico. Abandonados pelas famílias de origem, sob a tutela do Estado, tinham-se perdido nos trâmites burocráticos da instituição e na insanidade alheia, sem condições financeiras para a restituição da cidadania – eram, simplesmente, mendigos. (HIDALGO, 2008, p. 36)

A invisibilidade, fruto do gênero, da etnia e da classe social de Stela do Patrocínio, é tema recorrente em seu falatório[1], como veremos mais à frente. Inclusive, na forma das violências que esse território demarcado provoca em seu corpo. É interessante observar que, da produção artística dos internos da Colônia Juliano Moreira, dois nomes que obtiveram destaque nas Artes Visuais e na Literatura sejam de duas pessoas negras de classe social baixa: a própria Stela e o artista plástico Arthur Bispo do Rosário[2].
Zygmunt Bauman, em seu Vidas desperdiçadas (2005), traz o conceito de “refugos humanos” que permite refletir sobre um mecanismo de produção de dejetos humanos a partir de uma lógica de “modernização” da sociedade.
A produção de “refugo humano”, ou, mais propriamente, de seres humanos refugados (os “excessivos” e “redundantes”, ou seja, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos ou obter permissão para ficar), é um produto inevitável da modernização, e um acompanhante inseparável da modernidade. É um inescapável efeito colateral da construção da ordem e do progresso econômico. (BAUMAN, p. 12)

A imagem utilizada por Bauman é o contraponto que queremos destacar em relação à imagem do “gênio louco” e do “artista louco” que está em nosso imaginário cultural/social. Mais do que destoar da ordem social, ser uma voz dissonante, estamos falando de uma voz que vem do centro de um lugar de exclusão gerado pelo que é considerado avanço social. Arthur Bispo do Rosário construía suas obras do que era descartado pela sociedade, e Stela do Patrocínio escrevia alguns de seus textos em papelões que se perderam. É importante pontuar essas questões porque elas incidem diretamente na reflexão que iremos realizar sobre o corpo no falatório de Stela do Patrocínio. Sobre qual corpo estamos falando?

O corpo e a voz em Stela do Patrocínio

Os registros em áudio das falas de Stela do Patrocínio são os mais conhecidos e permitiram, após a sua morte, a publicação do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2009); trabalho de transposição feito por Viviane Mosé, que organiza o material em texto escrito, possibilitando uma percepção crítica a partir dos paratextos que o acompanham (prefácio e apresentação).
Contudo, há também alguns registros em vídeo, fragmentos de entrevistas que podem ser vistos, por exemplo, no documentário de 15 minutos de 2006, “Stela do patrocínio, a mulher que falava coisas”, dirigido por Márcio de Andrade. Apesar de se concentrar em sua maior parte no áudio dos falatórios, as cenas em movimento de Stela do Patrocínio, esses raros registros do corpo, permitem um outro contato com a artista para a elaboração de sua personagem poético-artística.
Os registros em vídeo de Stela aparecem no documentário em meio às sequências de imagens que amparam a voz gravada e recompõem, sem almejar uma integralidade, o corpo em flashes, destacando gestos, trejeitos, poses da protagonista do vídeo. As palavras são atravessadas por fotos de Stela do Patrocínio, da Colônia Juliano Moreira e outras imagens experimentais. As estratégias de composição utilizadas no vídeo permitem pensar a partir das alternâncias entre quadros que dialogam ora com a individualidade do corpo de Stela, ora com um espaço de coletividade (instituições psiquiátricas e de seus pacientes), de dar voz àqueles que não a possuem. Pensar o olhar do outro sobre esse corpo e como esse afeta e é afetado por aquilo que o cerca.
Essa composição-mosaico no documentário entre os rostos anônimos dos internos e o close no rosto de Stela do Patrocínio reforça a dicotomia entre um corpo coletivo e o corpo individualizado nas instituições psiquiátricas. Na perspectiva dessa relação, pensar num corpo-coletivo é entender que este é afetado (no sentido de repressão e liberdade) de forma social e não somente individualizada. Em alguns textos sobre a poeta, é recorrente a expressão, com algumas variações, “Stela se destacava dos outros pacientes”. O destaque surge de uma previsibilidade de apagamento que instituições psiquiátricas fazem com as identidades que ali entram. Tornam-se números, doenças, tratamentos e abandonos. A epígrafe de Pablo Milanés (grafado Milanez no livro), verso da música “Canción por la unidad Latinoamericana”, que abre a introdução de O reino dos bichos e dos animais é o meu nome e que diz “O que brilha com luz própria ninguém pode apagar”, reforça esse sentido de brilho individual que também está presente no título do texto, “Estrela”, jogo de palavras entre Stela-Estrela. Aquela que brilha na escuridão.
O falatório de Stela do Patrocínio fascina porque parece mobilizar um conhecimento, um “saber” perdido ou inalcançável. Joga com questões que estão na superfície dos nossos questionamentos sobre os limites entre razão e desrazão, resquício talvez da relação com a loucura que Michel Foucault (1978) descreve que era vista durante o Renascimento com certa cordialidade antes do silenciamento imposto pelo advento da razão no ocidente no Classicismo.
O corpo do louco é vitimado com a exclusão tal qual os leprosos e os heréticos o foram em outras épocas, mas essa não é a vitimização única que se abate sobre a loucura: Foucault demonstra com clareza que a loucura, após o Renascimento, foi capturada por um discurso amplo que a desqualificava enquanto linguagem, pois a enredava em um jogo de forças com a razão, razão essa que se tornava o ponto alto do regime de verdades ocidental. Enquanto isso, a loucura se tornava uma linguagem falsa, incapaz de falar a verdade. A loucura tornou-se, ao longo da Idade Clássica, linguagem interdita. Entretanto, não só ela foi excluída nessa grande internação ocorrida a partir do século XVII: toda outra miríade de linguagens foi fechada pela sociedade em hospitais gerais, e todas elas acabaram por ser excluídas do domínio da verdade e ligadas à desrazão. (PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1520)
Sobre os discursos, Foucault (1996) apresenta três procedimentos referentes à sua exclusão em nossa sociedade:
1. A palavra proibida: que consiste nos procedimentos de controle em que são determinados aquilo que pode ser dito ou não, controlando os discursos.
2. A palavra excluída: que representa o elemento marginalizado (louco)
3. A vontade de verdade: que exerce um poder coercitivo, uma verdade que justifica as exclusões.
Dessa forma, o discurso se constitui como poder de controle, coercitivo e perpetuador das exclusões sociais. No âmbito da discussão da fala do louco, Foucault afirma que, de um caráter interdito, ela surge “[...] como uma palavra que envolve a si própria, dizendo por baixo daquilo que diz outra coisa, da qual ela é, ao mesmo tempo, o código único possível” (FOUCAULT, 2006, p. 216 apud PROVIDELLO e YASUI, 2013, p. 1521). De certa forma, o que se torna palavra reverbera em si mesmo, potencializando não apenas a unidade oracional, mas o signo linguístico, mostrando que podem apontar para sentidos desconhecidos.
De modo geral, pode-se dizer que as palavras que compõem o falatório de Stela do Patrocínio são reconhecíveis. Mas o que nos surpreende é o modo como se relacionam umas com as outras, como as combinações inusitadas ganham significados caleidoscópios, rebelados de um ordenamento racional e que conversam com uma tradição de transe que remete às falas dos pretos velhos na mitologia das religiões brasileiras de matriz africanas. Ou à ladainha religiosa, repetitiva que segue num crescente, abrindo para cada repetição a possibilidade de um significado oculto que se revele ao final como um gozo hipnótico, nos forçando a refazer nosso olhar não só sobre as palavras, mas também sobre o corpo marginalizado do louco. O trecho a seguir é bastante emblemático desse recurso da repetição no falatório de Stela do Patrocínio.
Eu não tenho cabeça boa não
Não sei o que tem aqui dentro
Não sei o que tem aqui dentro
Não sei o que tem aqui dentro
Eu sei que tem olho
Mas olho pra fazer enxergar como?
Quem bota pra enxergar
se não sou eu que boto pra enxergar?
Eu acho que é ninguém
Enxerga sozinho
Ele se enxerga sozinho
(PATROCÍNIO, 2009, p. 81)





Na publicação Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2009), há divisões que funcionam como eixo de sentidos propostos pela organizadora do livro, Viviane Mosé. A parte V, intitulada “A parede ainda não era pintada de tinta azul”, traz textos regidos mais explicitamente pelo eixo de sentido corpo/sexualidade. Viviane Mosé (2009) descreve tal conexão temática das falas transcritas como uma “perplexidade diante do corpo” (p. 21) também característica de outras falas de Stela do Patrocínio. As marcas das experiências de violência, resultado da exclusão e da invisibilidade dos corpos, aparecem de forma bastante explícita, como veremos a seguir:



Eu fui agarrada quando eu estava sozinha
Não conhecia ninguém não conhecia nada
Não via ninguém não via nada
Nada de cabeça e corpos
Nada de casa nada de mundo
Eu não conhecia nada eu era ignorante
Depois que eu fui agarrada para relação sexual e
 pra foder
Depois, só depois eu comecei a ter noção e ficar
 sabendo
Antes eu não fazia nada
Não dependia de nada
Não fazia nada
Era como uma parasita
Uma paralisia um câncer
(PATROCÍNIO, 2009, p. 94)

O corpo surge no poema a partir da temática da violência sexual que aponta para um cenário mais amplo relacionado ao histórico da reforma psiquiátrica no Brasil em que as questões de gênero no ambiente de internação psiquiátrica foram esquecidas. Em especial, as implicações que a violência sexual acarretam no adoecimento mental das mulheres, tanto em confinamento como fora das instituições psiquiátricas. “Eu fui agarrada quando eu estava sozinha”, o impacto do primeiro verso coloca o corpo em confronto com uma realidade social, comprovada nas diversas denúncias que podem ser facilmente localizadas sobre violência sexual em hospitais psiquiátricos. Isolamento, abandono e muitas vezes conivência de setores da instituição revelam a face violenta do comportamento humano diante de corpos fragilizados e sem voz (a palavra excluída)[3].


Tal quadro também resgata o conceito de histerização do corpo da mulher que, segundo Foucault (1988), trata de processo em que este corpo (sexualmente potente) é analisado e constitui-se uma ameaça patológica (p. 98). Observa-se no poema a repetição de uma mensagem acerca do desconhecimento (“Não conhecia ninguém não conhecia nada”, “Eu não conhecia nada eu era ignorante” e “Depois, só depois eu comecei a ter noção e ficar/sabendo”), desconhecimento anterior à violência sexual, desconhecimento que estabelece uma fronteira entre um abrupto e violento conhecimento da própria sexualidade, do próprio corpo. O lamento que surge nos versos aponta para si certa responsabilidade sobre o acontecimento, como se o desconhecimento fosse também o provocador da situação. Não há a descrição de outro corpo completo, mas de uma alteridade fragmentada, a figura do agente da violência descrita se presentifica pela ausência sinalizada: “Não via ninguém não via nada/ Nada de cabeça e corpos”. É possível fazer a leitura de que a violência, na assimilação dessa experiência, não é realizada por um agente individualizado, dotado de rosto, corpo e nome, mas por um poder que invade os corpos excluídos, como se a vulnerabilidade dos corpos à margem fosse um destino ao qual não se escapa.
A recusa em ver esse outro é também a recusa de assimilação do episódio. Há uma clara divisão existencial a partir dele e que marca o início de um “conhecimento” que não é libertador do corpo. “Antes eu não fazia nada/ Não dependia de nada/ Não fazia nada/ Era como uma parasita/ Uma paralisia um câncer”. O episódio também não traz uma modificação nesse estado de lamento, a violência, ao contrário, aprisiona o corpo nesse instante. É interessante observar que há um discurso distinto nos trechos em que o corpo saturado de sexualidade (FOUCAULT, 1988) se revela como podemos verificar a seguir:
Tive na avenida Rio Branco
A rua inteirinha cheia de homens
E eu me alimentei bem alimentada
Eles me deram alimentação de vitamina de abacate
De mamão de banana de aveia
Tive na Avenida rio Branco
Tive na avenida Presidente Vargas
Tive na Nilo Peçanha
Tive na Avenida de Nossa Senhora de Copacabana
Em Copacabana tive muitos homens mesmo
(PATROCÍNIO, 2009, p. 91)
Mulher negra, Stela do Patrocínio apresenta dois pontos importantes sobre a discussão da sexualidade dos marginalizados. Se no poema anterior observamos a violência sexual (resgatando uma memória coletiva de violações que o corpo do negro e, em especial, da mulher negra, sofre desde a chegada dos primeiros negros escravizados ao Brasil), no texto seguinte observa-se a hiperssexualização do corpo da mulher negra, na sexualidade descrita em parceiros que se espalham na cartografia da cidade do Rio de Janeiro (Avenida Rio Branco, Avenida Nilo Peçanha, Avenida Nossa Senhora de Copacabana). O corpo negro feminino, invisível e indesejado, é também o corpo exótico, “da cor do pecado”, disponível para o prazer dos senhores da Casa Grande e para o ódio das sinhás que infligiam torturas e mutilações para as mulheres negras que eram alvo do desejo dos maridos. A objetificação do corpo da mulher negra é resultado de uma cultura do patriarcado e do racismo que conferem a esse corpo sentidos de promiscuidade,  interdição para uma relação monogâmica. A maternidade é outro tema em que atravessam os estigmas da loucura e do racismo:
Eu já produzi uma criança no colo outra no corpo
Sem eu saber que estava produzindo uma criança
Pequena
De tamanho grande e de saúde
Eu também estava com saúde
Era Rio de Janeiro
Ainda era Botafogo
Eu me confundi comendo pão ganhando pão
(2009, p. 96)
Os dados biográficos sobre a vida de Stela são muito imprecisos, não é possível afirmar que ela teve filhos, os fragmentos do falatório podem até apontar para uma biografia, mas são também discursos mediados pela fragilidade da memória, da subjetividade e do compartilhamento de experiências. Mas não escapam de uma interpretação relacionada ao que viemos discutindo nesse artigo, sobre os sentidos do corpo na produção de Stela do Patrocínio. A maternidade também é outra marca de exclusão para o corpo da mulher negra, uma imagem emblemática do racismo no Brasil é a fotografia (1860) de João Ferreira Villela intitulada “Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica”[4]. A fotografia traz a ambiguidade da proximidade e subordinação do corpo negro, estrutura perpetuada na cultura do “é quase da família” que ainda rege as relações trabalhistas no serviço doméstico no Brasil. A figura da ama de leite na fotografia de Vilella diz muito sobre o verso “uma criança no colo outra no corpo” do falatório. A imagem de uma maternidade negada se prolonga no trecho seguinte do livro em que podemos ver certo distanciamento entre mãe e filho:
Tá respirando tá enxergando tá ouvindo vozes
Tá com dentes completos e fortes
Tá com um pouquinho de cabeleira
Tá de brinco tá bem vestida bem calçada
Toda quarta feira você vem
Já tá com cabeça
Tá com pele tá com carne tá com ossos
(2009, p. 97)

O trecho traz a cena de uma visita, visita do filho(a) à mãe. Stela pode ser a mãe que observa o corpo do filho, suas pequenas mudanças, seu asseio, mas ela também pode ser a filha que visita que é levada para receber o olhar materno (a mãe de Stela do Patrocínio também teria sido interna do Núcleo Teixeira Brandão). Olhar de mãe e filha que se tornam um só. O texto também traz essa imagem recorrente nos textos de formação do corpo, de uma materialidade que está sempre desconstruída e que possui seu ápice na metáfora dos gases que percorre seu falatório: “Eu era gases puro, ar, espaço, vazio, tempo/ Eu era ar, espaço vazio, tempo/ E gases puro, assim, ó espaço vazio, ó/ Eu não tinha formação/ Não tinha formatura” (p. 74).
O corpo, que, ao mesmo tempo, traz as marcas de uma experiência coletiva de uma perspectiva étnica, de gênero, é também o corpo que, a todo momento, não consegue se “construir”. Espalha-se pelos espaços, pelo vazio. A cabeça que não fica na cabeça, o corpo que não quer ser mais corpo.
É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
(2009, p. 44)
O poder de controle é representado nessas vozes que surgem de forma recorrente no falatório de Stela do Patrocínio e que tentam impor uma ordem à materialidade do corpo. Repetindo o lugar de cada coisa, mesmo que não haja mais corpo/cabeça para ordenar. Tudo se espalha, se desfazendo e se multiplicando. O falatório de Stela descontínuo é espelho desse corpo que traz as marcas da exclusão e da marginalidade, mas também quer ser mais e se lança para o espaço sem nome, sem “formatura”. Gases.

Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
COELHO, Teixeira. “A arte não revela a verdade da loucura, a loucura não detém a verdade da arte”. In: ANTUNES, E. H.; Barbosa, L. H. S.; PEREIRA, L. M. de F. (Org.). Psiquiatria, loucura e arte: fragmentos da história brasileira. São Paulo: Edusp. 2002, pp. 147-163.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.
______. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
______. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988, v. 1.
HIDALGO, Luciana. Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura. São Paulo: Annablume, 2008.
MOSÉ, V. “Stela do Patrocínio – uma trajetória poética em uma instituição psiquiátrica”. In: PATROCÍNIO, S. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. 2. ed. Rio de Janeiro: Beco Azougue Editorial, 2009. pp. 13-35.
PATROCÍNIO, Stela do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. MOSÉ, Viviane (Org). 2. ed. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2009.
PROVIDELLO, G. G. D.; YASUI, S. “A loucura em Foucault: arte e loucura, loucura e desrazão”. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 20, n. 4, pp. 1515-1529, dez. 2013. Disponível em: http://ref.scielo.org/gsp78h. Acesso em 20 fev. 2018.
VENANCIO, A. T.; POTENGY, G. F. (Org.) O asilo e a cidade: Histórias da Colônia Juliano Moreira. Rio de Janeiro: Garamond, 2015.



[1] Falatório é a expressão utilizada por Stela do Patrocínio quando se refere às suas falas.
[2] O livro editado com o falatório de Stela do Patrocínio foi finalista do Prêmio Jabuti e Arthur Bispo do Rosário é conhecido internacionalmente com exposições de suas obras em diversos países.
[3] Cf. Foucault, 1996.
[4] Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra19781/augusto-gomes-leal-com-a-ama-deleite-monica>. Acesso em: 01 de Fev. 2018.






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