Carol Dall Farra: sobre o ser marginal e o ser marginalizado na poesia

by - dezembro 15, 2019





Cuidado, preta, com a fala
Cuidado com o caminhar
Tua pele é retinta, e pele retinta não tem distorções

É fato consumado
Carol Dall Farra







Carol Dall Farra é uma multiartista (poeta, Mc, cantora e slammer) nascida em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, região periférica do Estado do Rio de Janeiro. Duque de Caxias possui uma imagem muito associada à violência ligada à criminalidade, ao controle do tráfico de drogas, das milícias e de muitas décadas de políticas deficitárias para a população. É dessa região que vem Dall Farra. Localizar o lugar de onde o poeta fala/vem é fundamental para marcar as discussões que serão aqui apresentadas que dizem respeito à dualidade entre o ser marginal e o ser marginalizado na poesia.
Neste artigo, pretende-se discutir sobre a condição do jovem negro periférico no lugar de sujeito e não mais de objeto na perspectiva da escrita literária. No primeiro momento, apresentaremos um breve histórico do movimento do slam, do qual a poeta faz parte, para em seguida introduzirmos a questão da marginalidade na literatura. Finalizaremos, discutindo a relação marginal e marginalizado para problematizar o lugar do poeta do slam considerando as identidades projetadas pela imagem do poeta marginal.

A poesia do Slam

O movimento do slam, nesta segunda década do século XXI pode ser considerado uma revolução cultural que coloca em xeque o repertório crítico e as formas como se discute ou pensa a poesia a partir da perspectiva da academia. O movimento abriu espaço pela força de suas apresentações para uma produção crescente e múltipla de jovens poetas que, em sua maioria, (considerando, em especial, o cenário carioca) fazem parte de grupos marginalizados socialmente seja por questões de raça, gênero, sexualidade ou geográfica.
 O slam é um movimento que surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos, com o Uptown Poetry Slam, organizado pelo poeta americano Marc Smith. Em sua origem, o movimento nasce de uma junção dos tradicionais saraus poéticos com a estrutura de um campeonato que é realizado por meio de notas dadas às performances dos poetas. Em Take the Mic: The Art of Performance Poetry, Slam, and the Spoken Word, Smith e Kraynak (2009) ressaltam o caráter competitivo e a importância do momento da performance e da interação com o público no slam:

Slam são cativantes eventos poéticos que prendem a atenção do público ao vivo na apresentação de poesias que foram compostas, polidas e ensaiadas com o propósito de serem executadas - muitas vezes em uma arena competitiva, mas nem sempre. É um carnaval, um concurso, uma sala de aula interativa, uma assembleia na prefeitura, um jogo de trapaça, uma disputa de boxe versificada, como uma celebração ecumênica que eletrifica e anima as pessoas que estão ouvindo e assistindo. (SMITH & KRAYNAK, 2009, p. 3 [tradução nossa])

Smith e Kraynak (2009), no trecho citado, potencializam por meio de metáforas o aspecto celebrativo e vibrante das disputas. Os versos, como colocam os autores, precisam animar a plateia e, por isso, é fundamental a atenção à escolha do tema e à realização de uma apresentação que conecte slammers  e espectadores. A palavra slam, no contexto cultural americano, é utilizada em esportes como o beisebol para denominar um tipo de jogada, mas também significa, em seu sentido denotativo, “bater com força”, uma onomatopeia do som surdo que acompanha uma forte batida. Pensando por esse viés de um forte impacto, é possível compreender a poesia apresentada no slam como algo que mobiliza e desperta.
A poeta Roberta Estrela D’Alva foi a responsável por introduzir o slam no Brasil, em 2008, após uma estadia em Nova York quando assistiu, na cidade americana, a uma competição de slam. As primeiras edições no Brasil ocorreram no bairro Vila Pompeia em São Paulo, no espaço do Núcleo Bartolomeu de Depoimento, coletivo que formulou o conceito de “teatro hip hop” que busca dialogar o teatro épico à cultura de hip hop. O ZAP! (Zona Autônoma da Palavra) nasceu neste espaço e é reconhecido, atualmente, como a primeira competição de slam no Brasil. Desse primeiro núcleo, surgiu um outro grupo de batalhas o Slam da Guilhermina que foi o pioneiro em levar as batalhas para o espaço público da cidade.
A chegada do slam aos espaços públicos foi um momento importante pois incorporou à sua imagem um caráter social, além de configurar-se como um espaço de visibilidade artística distinto dos espaços canônicos e legitimados como o teatro ou o livro. Esse encontro entre espectador e poesia por meio das performances em praças, saídas de metrô, estações, etc. foi, em muitos casos, o primeiro contato de muitos jovens com a poesia e também uma oportunidade de reconstruir para esses futuros/novos poetas o próprio conceito de arte e de literatura dessa vez muito mais próximo e convidativo para eles.
A partir do ZAP!, houve um crescimento em número, participação de slammers/artistas e mobilização de público ao longo desses dez anos. A popularidade é também reflexo do poder de alcance das redes sociais, em especial, o Youtube e o Facebook que, por meio do registro em vídeo das performances, têm conferido visibilidade a slammers periféricos que não estão (ou estavam) dentro da lógica do mercado editorial de venda e consumo de poesia. Além disso, a internet permite que públicos distintos assistam às batalhas que ocorrem em comunidades periféricas e por mais que não se rompa a segregação social que há na geografia das grandes cidades, o ambiente das redes possibilita que haja visibilidade para um tipo de produção que atua no espaço do efêmero da performance e que reivindica para a periferia o lugar de “acontecimento” da poesia.
De 2008 para cá, no Brasil, muitos desses grupos que começaram a se organizar para produzir os slams passaram a se identificar como “coletivos poéticos” reflexo do ativismo político assumido pelos envolvidos.  Em 2012, Roberta Estrela D’Alva, em sua dissertação de mestrado, já apontava para os diferentes perfis presentes nesses grupos:

Poderíamos definir o poetry slam, ou simplesmente slam, de diversas maneiras: uma competição de poesia falada, um espaço para livre expressão poética, uma ágora onde questões da atualidade são debatidas ou até mesmo mais uma forma de entretenimento. De fato, é difícil defini-lo de maneira tão simplificada, pois, em seus 25 anos de existência, ele se tornou, além de um acontecimento poético, um movimento social, cultural, artístico que se expande progressivamente e é celebrado em comunidades em todo o mundo. (NASCIMENTO, 2012, p. 97)

Como movimento social, o slam tornou-se um espaço de produção para jovens periféricos distinguindo-se e revitalizando a realidade dos saraus muitas vezes elitizados de poesia. Carol Dall Farra é uma das slammers expoentes no cenário carioca, ela afirma, em entrevista, que a poesia amparou as suas causas e que antes ela pensava em “como não me calar como mulher negra, como não me calar como mulher periférica” e, para ela, a poesia foi a resposta (DALL FARRA, 2017). O slam configurou-se um espaço de resistência não apenas para ela, mas para diversos jovens que utilizam a arte para expor suas aflições e pautar seus interesses.


Sobre o ser marginal e o ser marginalizado na poesia


O termo marginal engloba um campo de estudos muito profícuo dentro dos estudos literários. O lançamento, em 1975, da coletânea 26 poetas hoje, organizado pela crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda foi um momento emblemático para essas discussões. Já na introdução da obra, a pesquisadora apresenta um conceito para o que será entendido como marginal para nomear a produção ali reunida:

Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia. Planejadas ou realizadas em colaboração direta com o autor, as edições apresentam uma face charmosa, afetiva e, portanto, particularmente funcional. Por outro lado, a participação do autor nas diversas etapas da produção e distribuição do livro determina, sem dúvida, um produto gráfico integrado, de imagem pessoalizada, o que sugere e ativa uma situação mais próxima do diálogo do que a oferecida comumente na relação de compra e venda, tal como se realiza no âmbito editorial. (HOLLANDA, 2007, p. 9).

O termo “marginal”, nesse contexto da década de 70, está relacionado à posição de independência frente ao mercado editorial. A esse sentido do termo “marginal”, a autora acrescenta características que aludem aos elementos intrínsecos e extrínsecos do texto literário: participação do autor nas etapas do processo de confecção e venda do livro; linguagem informal, desierarquização do espaço nobre da poesia; recusa da literatura classicizante e das vanguardas experimentais (HOLLANDA, 2007).  A partir desse primeiro momento, o termo “marginal” passará por algumas mudanças de perspectiva, podemos destacar outros momentos importantes como a publicação, em 2000, do romance Capão Pecado de Ferréz e do surgimento do Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) em 2007. A criação de novos espaços de visibilidade que tentam criar marcas de diferenciação (pelo nome, pela localização ou pela linguagem) dos centros de poder faz parte de um projeto de colocar as vozes periféricas como sujeitos e não como objetos na literatura.
O termo “marginal”, a partir dessa virada, irá se aproximar de seu sentido ligado ao social (diferenciando-se de sua acepção relacionada ao movimento da literatura marginal dos anos 70). Estamos, portanto, falando agora de marginalidade geográfica, econômica e social, da voz que se projeta dos espaços periféricos, dos corpos periféricos. Essa produção assumirá um caráter explicitamente engajado com sua vivência periférica, problematizando questões relacionadas à oposição centro/periferia nos espaços de consumo literário e também de legitimidade, afinal, escrever poesia é também adentrar na seara das questões sobre o que é ser poeta, ou quem pode ser poeta, como é seu rosto, sua cor e seu CEP.
Nessa segunda década do século XXI, a produção poética do slam retoma com energia essa discussão do marginal na literatura tendo em vista que sua produção também estará conectada à sua vivência marginal cotidiana no espaço urbano. Dall Farra, em entrevista ao canal no youtube “Mulheres de Luta”, afirma:

O ato de você ser um poeta marginalizado significa que você enfrentou diversas barreiras até pegar essa caneta e escrever seu poema no papel. Porque você escreve sua verdade, sua realidade, seu cotidiano dentro da favela.  Para esse menor da favela, essa mina da favela chegar ao ponto de ter essa caneta na mão e passar aquela vivência para o papel, ele já ultrapassou várias barreiras, já ultrapassou a barreira do tráfico, já ultrapassou o genocídio do povo negro, ultrapassou a falta de educação na periferia, na favela. Então é um movimento de resistência que perpassa vários descasos do Estado. (DALL FARRA, 2017) [Grifos nossos]

A afirmação da poeta é muito pertinente para ampliarmos a discussão sobre o “poeta marginal”/ “escritor marginal” na literatura. Se até aqui apresentamos uma visão sobre o ser poeta marginal como uma autodenominação, uma alcunha que reflete um engajamento e um posicionamento frente à exclusão dessas vozes do circuito literário e da própria historiografia literária canônica, temos agora um nome que reforça os processos de invisibilidade. Ser poeta marginalizado coloca em destaque, portanto, o oposto a um posicionamento, mas uma visão em que a condição de sujeito socialmente marginalizado é indissociável do fazer e do ser poeta. A circulação do poeta marginalizado nos espaços legitimados da literatura não exclui os preconceitos sociais, o racismo, a percepção de uma presença tolerada, mas bastante incômoda.
Carol Dall Farra reflete sobre sua condição de mulher negra e periférica não apenas em sua poesia, mas em seu pensamento crítico sobre seu fazer poético. Bell Hooks (1995), em seu texto “Intelectuais negras” afirma, tendo como ponto de partida sua experiência pessoal, que o espaço intelectual é um espaço tradicionalmente visto e reservado ao homem branco. A atividade intelectual, dessa forma, pensando ainda as intersecções de raça, classe e gênero, não é vista como algo próprio, sobretudo, às mulheres negras. Por extensão, podemos depreender que tanto o trabalho intelectual quanto artístico, numa acepção de este ser também um lugar de produção intelectual, não são espaços seguros para negros sobretudo para mulheres negras. A autora ainda afirma que

[...] o conceito ocidental sexista/racista de quem e o quê e um intelectual que elimina a possibilidade de nos lembrarmos de negras como representativas de uma vocação intelectual. Na verdade dentro do patriarcado capitalista com supremacia branca toda a cultura atua para negar as mulheres a oportunidade de seguir uma vida da mente torna o domínio intelectual um lugar interdito. Como nossas ancestrais do século XIX só através da resistência ativa exigimos nosso direito de afirmar uma presença intelectual. O sexismo e o racismo atuando juntos perpetuam uma iconografia de representação da negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia de que ela está neste planeta principalmente para servir aos outros. Desde a escravidão até hoje o corpo da negra tem sido visto pelos ocidentais como o símbolo quintessencial de uma presença feminina natural orgânica mais próxima da natureza animalística e primitiva (HOOKS, 1995)

O corpo da mulher negra, dessa forma, é um espaço interdito para o exercício da intelectualidade na visão racista e sexista da sociedade patriarcal. Todavia, esses corpos periféricos resistem a esse apagamento e objetificação quando assumem para si este lugar de poetas e intelectuais. Esse movimento de resistência ecoa no lema do grupo de pesquisa “Intelectuais negras” da UFRJ coordenado pela pesquisadora Giovana Xavier que afirma: “Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando a sua própria história”.[1] A frase visa desconstruir esse espaço destinado às mulheres negras apenas como objeto de investigação nos espaços intelectualizados, reivindicando o protagonismo tanto na sua produção como na narrativa de suas histórias.
Dessa forma, pensar o poeta marginal é pensar também o poeta marginalizado. Ser poeta apenas é um privilégio. Essa face dupla da discussão deve sempre ser evidenciada para que não se perca de vista o espaço conquistado dentro dos estudos literários. A própria adjetivação do sujeito poeta como marginal ou marginalizado já coloca em questão uma concessão de fala ao outro. Situando a produção poética desses grupos como uma transgressão de um conhecimento ou saber legitimado guiado por padrões eurocêntricos que tentam aliciar para o conceito de “qualidade” características que excluem os saberes ligados ao oral ou à experiência desses indivíduos.


Referências:
DALL FARRA, Carol. “A poesia de Mc Dall Farra”. Canal Mulheres de Luta. 11 set. 2017. Disponível em https://youtu.be/vd3KuMD90pg. Acesso em 10 nov. 2017.
DALL FARRA, Carol. “Slam das Minas RJ – final 2017 – Carol Dall Farra”. Canal Slam das Minas RJ. 08 out. 2017. Disponível em https://youtu.be/DbQXy_jcCXE. Acesso em 10 nov. 2017.
DUARTE, Mel (org). Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.
HOLLANDA. Heloísa Buarque. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2007.
HOOKS, Bell. Intelectuais negras. Estudos feministas, Florianópolis, ano 3, p. 464-478, 2º semestre de 1995.
NASCIMENTO, Roberta Marques do. A performance poética do ator-MC. Dissertação de Mestrado. Mestrado em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2012.
SMITH, Marc Kelly; KRAYNAK, Joe. Take the mic: the art of performance poetry, slam and the spoken word. Illinois: Sourcebooks Inc, 2009.


[1] O site do grupo de pesquisa é <https://www.intelectuaisnegras.com>

You May Also Like

0 comentários